Unicamp testa gel para combate à DST
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de dezembro de 2002
Silvana Guaiume<br> Agência Estado 
Campinas Um gel que potencializa o sistema de defesa da vagina pode ser o que há de mais próximo no combate à contaminação pelo vírus HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, além do método tradicional da camisinha. Por enquanto, o Acidform mostrou ser eficaz espermicida a partir de testes em pacientes do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Os testes feitos na Unicamp irão servir de base para o aprofundamento dos estudos sobre o espermicida e microbicida, a partir do próximo ano. A supervisora do projeto e professora do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, Eliana Amaral, explicou que no Caism foi feita a primeira fase de testes.
Um grupo de 38 mulheres saudáveis, com idades entre 18 e 45 anos, foi dividido em subgrupos para a aplicação do produto. A equipe do Caism acompanhou os subgrupos durante quatro ciclos pós-coito com exames detalhados no órgão sexual. As alterações vaginais foram todas registradas, inclusive nas mulheres que não haviam aplicado o Acidform.
Eliana comentou que o resultado dessa pesquisa será o primeiro da literatura médica mundial sobre as reações vaginais após a relação sexual. Na primeira fase dos testes, as mulheres que utilizaram o Acidform não apresentaram nenhuma reação negativa ao produto, o que caracterizou excelente tolerância das pacientes ao gel. Na segunda fase, ficou comprovado que o gel é um potente espermicida. Segundo Eliana, nenhum espermatozóide sobreviveu ao uso de Acidform antes da relação sexual. Todos ficaram imobilizados, ou mortos, entre a vagina e o colo do útero.
No início do próximo ano, outra equipe de pesquisadores da Unicamp irá verificar qual o resultado do uso de Acidform como medicamento, no combate à vaginose bacteriana, uma doença provocada pelo desequilíbrio do pH da vagina, que propicia a proliferação das bactérias deixando o órgão mais suscetível a contaminações. Ainda não há prazo para conclusão desse estudo.
Eliana lembrou que está cientificamente comprovado que mulheres com vaginas saudáveis têm menos chances de contrair aids ou outras doenças sexualmente transmissíveis, já que o pH do órgão feminino é um eficaz sistema de defesa.
O Acidform é um composto de ácidos, explicou Eliana, ''uma combinação de produtos base sem nenhum medicamento ativo'' que mantém o pH da vagina em baixos níveis, menores que 4,7, o mesmo das vaginas normais. Ela comentou que a ejaculação tem níveis de pH bastante superiores, de 7 a 8.
Com a aplicação do gel antes da relação sexual, o pH da vagina não se desequilibra, apesar do despejo de espermatozóides com um pH muito superior. A manutenção do pH baixo promove a morte de todos os espermatozóides antes deles tentarem ultrapassar o colo do útero, onde o pH também é alto.
No próximo ano, os testes serão ampliados a um grupo maior de pacientes para verificar se a técnica também é eficiente para combater aids e outras doenças. A pesquisadora informou que a expectativa é de que o produto comece a ser vendido já a partir de 2007.
A segunda e terceira fases de testes deverão incluir países da África, onde a contaminação por HIV é muito alta. A pesquisadora lembrou que no Brasil 0,5% da população feminina está infectada pelo HIV e na África esse número sobe para 30%. ''Há um esforço mundial em encurtar os prazos para a aplicação de medicamentos que possam combater o HIV. E há a preocupação das universidade de buscar produtos de baixo custo para ser utilizados pela população carente, como Acidform'', comentou a professora.
A fórmula do gel foi desenvolvida pelo programa Topcad, da Rush University, de Chicago, e fabricado em Campinas por uma farmácia de manipulação, sob supervisão da Unicamp. A Unicamp foi escolhida para os testes porque uma pesquisa de opinião da própria universidade revelou que as mulheres brasileiras preferem os produtos em gel para aplicação vaginal. ''Sem cor, cheiro e, eventualmente, com gosto de morango'', divertiu-se Eliana. Ela citou que na Índia há pesquisas que indicam a preferência das mulheres por pastilhas, de cor escura, para aplicação vaginal.
De acordo com a pesquisadora, a terceira fase de testes, em que será verificada mais especificamente a contaminação por HIV e outros vírus, esbarra na questão ética de que não se pode expor pacientes a doenças. Daí o Acidform será testado em mulheres que utilizam camisinha, sob a perspectiva de que ela falhe, ou outros métodos de concepção, como o diafragma.
Atualmente, conforme a professora, há 6 ou 7 medicamentos vaginais em testes, entre os quais o Acidform, que tem se revelado o mais promissor. Ela enfatizou que o gel não pode ser considerado um substituto da vacina contra aids. ''Mas a vacina ainda é um projeto a longo prazo e o gel pode ser uma boa alternativa ao método tradicional de prevenção'', argumentou.
Um das vantagens do Acidform, acrescentou Eliana, é que ele trabalha com a resposta normal da vagina às infecções. ''A vagina tem um mecanismo formatado para ser agredido'', justificou, pedindo licença às feministas.


