Campinas, SP, 25 (AE) - O Departamento de Medicina Legal (DML) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) anunciou hoje a retomada da perícia para tentar identificar desaparecidos políticos entre as 1.048 ossadas encontradas numa vala comum clandestina, em 1990, no Cemitério de Perus, na Grande São Paulo. O trabalho, interrompido em maio de 1998, já havia identificado cinco militantes políticos desaparecidos durante o regime militar.
O diretor do DML, Ricardo Molina de Figueiredo, decidiu retomar a perícia depois que a juíza substituta da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro, Maria Nunes de Barros, enviou um ofício à Unicamp pedindo informações sobre a situação das ossadas. A medida foi motivada por um pedido de liminar para que a universidade apressasse o trabalho de identificação, apresentado pelo vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Gilberto Molina.
"Se entre o material houver ossadas de desaparecidos políticos, temos certeza de que poderemos identificá-los", garantiu o professor titular de odontologia legal da Unicamp, Eduardo Daruge, que coordenará o trabalho junto com o legista Nelson Massini, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O primeiro passo, segundo ele, será fazer um invetário das ossadas
que estão guardadas há nove anos numa sala do DML. Daruge acredita que pelo exame das arcadas dentárias seja possível chegar às identificações.
O perito também pretende montar um banco de dados com material genético de parentes dos desaparecidos políticos. A medida, que até hoje não foi tentada, servirá para a eventual necessidade de exames de DNA. "Isso garantirá o esclarecimento de dúvidas, além de permitir a confirmação da identificação no futuro", explica. O trabalho de identificação foi iniciado há nove anos por uma equipe de 50 peritos, coordenada pelo legista Fortunato Badan Palhares.
Logo no primeiro ano foram identificadas as ossadas de Frederico Eduardo Mayr e Denis Casemiro. Posteriormente, foram confirmadas as identificações de Sonia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, Antonio Carlos Bicalho Lana, e Heber José Gomes Goulart. Em 96, Palhares foi afastado do caso devido a pressões dos familiares, que exigiam maior rapidez na perícia.
O trabalho foi repassado para o legista José Eduardo Zappa, que pediu demissão do DML em 97 sem ter avançado nas identificações. Em maio do ano passado, a Unicamp decidiu devolver as ossadas para o governo do Estado, alegando que não havia mais condições técnicas de prosseguir. A Secretaria de Estado de Segurança Pública esperava formalizar um convênio com a Universidade Estadual de São Paulo, mas o acordo não saiu e as ossadas permaneceram guardadas em Campinas.
Inconformados com a situação, os familiares resolveram pressionar a Justiça para exigir a retomada do trabalho. Há, entre os parentes dos desaparecidos políticos, fortes suspeitas de que poderão ser identificados Hiroaki Torigoi, Luis José da Cunha, Dimas Antonio Casemiro e Flávio Carvalho Molina. Este último era irmão do atual vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais.
Há dois anos peritos da Unicamp também idenficaram a ossada de Maria Lúcia Petit, trazida do cemitério de Xambioá, em Goiás. Uma outra ossada foi retirada do mesmo local, mas os peritos não conseguiram identificá-la. Os parentes das vítimas do regime militar acreditam, porém, que os ossos pertençam a Francisco Manoel Chaves, que também desapareceu durante a ditadura.

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