União industrial furiosa com o governo argentino
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de agosto de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 02 (AE) - O presidente Carlos Menem expôs hoje (02) uma dúvida que se constituiu em um duro alerta à União Industrial Argentina (UIA): "Se o Mercosul terminar, não sei onde vamos vender grande parte de nossa produção". O alerta é na verdade um recado, que poderia ser traduzido como "deixem de pressionar. Fomos longe demais nas medidas protecionistas contra o Brasil e agora temos que nos contentar com o que for possível na reunião de Montevidéu". A cúpula entre diplomatas e funcionários dos ministérios da Fazenda dos dois países será realizada na quinta e sexta-feira na capital uruguaia.
"Menem foi ao Brasil defender a indústria brasileira". Esta expressão tornou-se comum nos últimos dias em Buenos Aires no meio empresarial, para referir-se ao que está sendo considerado com a "pouca defesa da indústria nacional".
Em conversa com integrantes do governo, o secretário-geral da UIA, Ignacio De Mendiguren, ironizou: "Rapazes, não nos ajudem mais". O empresário admitiu inveja de seus colegas no Brasil: "Como gostaria ter funcionários de governo como os brasileiros, que demonstraram explicitamente que estão dispostos a tomar todas as medidas necessárias para ter um país produtivo".
Mendiguren também criticou o governo brasileiro, ao afirmar que "eles exageraram nas reações às medidas das salvaguardas argentinas, porque, de fato, não há dano direto contra as importações com origem na indústria têxtil".
Durante o fim de semana, o vice-presidente da UIA, Alberto álvarez Gaiani, disparou suas acusações direto ao Itamaraty, em um tom fora de moda, sustentando que o chanceler Luiz Felipe Lampréia sofre de "soberba imperialista".
O ex-vice-ministro da Economia, Eduardo Curia, disse à Agência Estado que o poder de pressão da UIA atualmente é "relativo". Curia considera que "a própria UIA é culpada deste relativo peso" e citou o caso da decisão - já anulada - de aplicar salvaguardas em massa: "Foi uma proposta de escassas possibilidades de ser atendida".
Curia sustenta que os industriais argentinos "colhem o que semearam", já que "o problema real é cambiário", referindo-se ao apoio industrial à rigidez argentina em manter a paridade um a um entre o dólar e o peso, que reduz a competitividade do país. "As salvaguardas são um torpe subterfúgio para driblar a realidade", diz.
Segundo Curia, "a UIA está mais bélica, o que é um fato novo. Ela está projetando seu desespero por posição mais drástica, e acho difícil que Menem, que está no fim de sua presidência, se esforce por eles nas negociações. No entanto, serve como advertência por parte dos industriais, para o futuro presidente que tomará posse em dezembro".
Domingo Cavallo, ex-ministro da Economia, tampouco poupou críticas ao Brasil, ao afirmar que "é difícil concorrer com um país que se dá ao luxo de empobrecer todos seus trabalhadores", referindo-se aos efeitos da desvalorização do real. Segundo Cavallo, "as empresas brasileiras estão pagando salários de fome a seus trabalhadores".
O secretário de Relações Econômicas Internacionais, Jorge Campbell, cuja cabeça esteve a ponto de ser pedida pela UIA, afirmou que "a Argentina não cedeu. Mas, se por acaso cedemos e melhoramos o clima político, isso é bom para nós". Campbell afirmou que embora a tensão entre os dois países fora reduzida, "os problemas continuam". O secretário considera que é preciso que nos dois países, funcionários dos dois governos "tenham mais prudência em suas declarações".
As expectativas da reunião de Montevidéu são de poucos resultados. Um alto funcionário que deixou o governo no ano passado, afirmou à AE que "a Argentina vai voltar de mãos vazias à Buenos Aires, e aí quero ver o que vai acontecer". Segundo ele, "esta reunião será para manter as aparências, com a clássica formalidade de anunciar no fim do encontro que reiteram sua confiança no Mercosul".
Na equipe de negociadores a idéia é poder voltar com qualquer conquista, por menor que seja. Entre as propostas argentinas, está a de retomar com o Brasil a idéia de monitoramento conjunto do comércio.
Além disso, estimular as negociações setoriais como nos casos dos calçados e papel.


