União Européia elege hoje parlamento fortalecido GILLES LAPOUGE Correspondente
PARIS (AE) - Neste fim de semana, 11 países da União Européia (UE) elegem seus deputados ao Parlamento Europeu, com sede em Estrasburgo.
Em algumas nações o pleito ocorreu na quinta (Grã- Bretanha, Holanda e Dinamarca) e sexta-feiras (Irlanda). Amanhã, será realizado na Finlândia, França, Grécia, Espanha, Portugal, Luxemburgo, Suécia, Itália, Alemanha, Bélgica e áustria. Mas, seja como for, os resultados não serão divulgados antes do anoitecer.
Presumimos que os brasileiros - a não ser os especialistas - não saibam bem do que se trata. Não há por que se aborrecer, pois o mesmo acontece com muitos franceses, alemães ou italianos, segundo demonstra o total desinteresse dos cidadãos e uma provável enorme abstenção. Na Grã-Bretanha e Holanda, menos de um terço dos eleitores votou.
O mecanismo é simples: a UE funciona como qualquer país (só existindo a diferença de não ter um presidente). De resto, tem duas instituições: a Comissão Européia, em Bruxelas, com seu respectivo presidente, que constitui o Executivo, o governo.
E a Assembléia Parlamentar, a ser renovada no domingo, em Estrasburgo. O Parlamento de Estrasburgo foi desprezado durante muito tempo. Como entidade negligenciável, privada de poderes, estorvada pelas rivalidades internas e vitimada pela indiferença da comissão de Bruxelas.
Mas, no decurso da última legislatura, depois de 1994, o Parlamento Europeu encheu-se de brios. Essa assembléia de figuras notáveis presumivelmente alienadas se rebelou contra sua condição de extremidade secundária, imposta por Bruxelas.
A revolta de Estrasburgo foi propiciada pela ineficiência daquele que fora nomeado presidente da comissão de Bruxelas em 1994, um luxemburguês chamado Jacques Santer, gentil e invisível.
O que beneficiou Estrasburgo. Depois, houve as vacas, essas bem comportadas vacas, que ajudaram os deputados a ignorar os freios, sobretudo as vacas loucas que semearam o pânico no Reino Unido e em toda a Europa.
Foi graças ao Parlamento que se criou, em 1996, uma Comissão Parlamentar de Inquérito para examinar a ação de Bruxelas diante da epizootia bovina. O que resultou num relatório desanimador para o Executivo. É bem verdade que ninguém lhe deu maior atenção. Mas, pelo menos foi feito, incrementando o espírito combativo de Estrasburgo.
Numa segunda batalha foi descoberto aquilo que já se sabia há 20 anos: a comissão de Bruxelas é o paraíso das gratificações, das ações debaixo da mesa e da corrupção. N Nepotismo, notas falsificadas, numa casa-forte que tem de tudo. O Parlamento Europeu impacienta-se. Um relatório dos "sábios" é tão acabrunhante que reduziu a zero a comissão, tendo à frente Santer.
Um outro presidente, o italiano Romano Prodi, mais brilhante que Santer, assumiu as rédeas em Bruxelas. Esse é o aspecto combativo do Parlamento Europeu. Ele também executa um trabalho regular, cujo balanço é mais modesto.
Certo é que Estrasburgo conseguiu acompanhar com eficiência a grande obra dos dez últimos anos, o único êxito da UE: a criação da moeda única, o euro, em 11 dos 15 países apenas - a Inglaterra continua hesitante, dizendo um dia sim, um dia não.
Em compensação, nada de notável quanto às outras questões: reforma das instituições européias, execução de um novo processo de ampliação, avanço da Europa social desejada pela França ou a organização da Europa fiscal pretendida pelos alemães, etc.
Resta aos deputados europeus dispararem como ciclistas dopados, diante do sucesso sobre a comissão. Resta afirmarem seu poder. Infelizmente, existem empecilhos. O Parlamento Europeu pode ser comparado a uma fantasia de Arlequim: sob a aparência harmoniosa há os dois grandes blocos da esquerda e da direita, pontilhados de partidos menores. Como numa colcha de retalhos.
Até agora, Estrasburgo não dispõe de uma maioria visível. As fronteiras confundem-se, lastimavelmente. A direita é dividida, como a esquerda também. Tanto os deputados quanto os países que mais dão do que recebem da Europa miram severamente os deputados de países (como a Grécia e Portugal) que mais tiram do que dão dinheiro à UE. E, além de tudo, em quase todos os partidos há os que são pró- europeus e os antieuropeus. O que constitui um formidável imbroglio.
Assim, o rebaixamento da Comissão Européia e o fortalecimento do Parlamento fez a União Européia dar um grande passo rumo à democracia. Mas, ao mesmo tempo, existe a ameaça de desordem e incoerência.





