Recife, 30 (AE) - Os nove países em desenvolvimento mais populosos do mundo, grupo que inclui o Brasil e a China, não conseguiram dar um salto significativo na solução de seus problemas educacionais, nos últimos dez anos. A conclusão faz parte de documento que será apresentado amanhã na abertura da reunião de ministros desses nove países, em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana de Recife. "Houve progresso
mas não muito", resume o texto.
O documento foi preparado pelo ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Simon Schwartzman, a pedido da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), com base em dados fornecidos pelos governos de cada país. Além de Brasil e China, fazem parte do grupo México, Índia, Paquistão, Bangladesh, Egito
Nigéria e Indonésia. Com mais de 3,2 bilhões de pessoas, esses países reúnem mais da metade da população mundial e concentram cerca de 100 milhões de analfabetos.
O relatório sobre as ações desenvolvidas no Brasil pelo governo federal dentro do Plano Decenal, elaborado em 1993, será apresentado pelo ministro da Educação, Paulo Renato Souza, na noite de amanhã. Ele aponta que, de 1994 a 1998, a taxa de escolarização das crianças de 7 a 14 anos subiu de 86% para 95 3%. O resultado alcançado já superou a meta prevista para 2003, que era atingir 94% dessa população. Embora o acesso à escola tenha melhorado, os índices de repetência e evasão escolar no Brasil ainda são altos.
Até quarta-feira, representantes dos nove países estarão analisando relatórios e estatísticas para avaliar o desempenho do grupo nos anos 90, após a realização da Conferência Mundial de Educação para Todos, na Tailândia (1990), quando foram definidas metas comuns para a década. A idéia é sair de Recife com uma proposta dos mais populosos a ser apresentada na próxima conferência mundial, que terá a participação de cerca de 180 países, em abril, na cidade de Dakar (Senegal).
O relatório preparado por Schwartzman destaca, no entanto, que há diferenças profundas entre os indicadores educacionais dos nove países. É o caso do número de crianças matriculadas no ensino fundamental (antigo 1.o grau), em que Brasil e México, por exemplo, já superaram a taxa de 95%, enquanto nações como a Índia e Paquistão, estão abaixo de 70%. "Os países estão em claro descompasso e precisaremos ter cuidado ao definir uma proposta comum para a conferência mundial no Senegal", disse hoje a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Maria Helena Guimarães de Castro, após apresentar a programação do evento em entrevista coletiva para a imprensa internacional.
Segundo Maria Helena, Brasil, México, China e Indonésia formam um subgrupo com melhor nível educacional. Essa também é a avaliação do coordenador da Unesco para o E-9, sigla que designa o grupo de nações em desenvolvimento mais populosas do mundo, Wolfgang Vollmann. Para ele, Bangladesh, Índia e Egito estariam numa categoria intermediária, enquanto Paquistão e Nigéria teriam ainda muito chão para percorrer. Com uma visão otimista do desenvolvimento do ensino nesses países, Vollmann comemora o fato de todos eles terem apresentado melhorias na última década. Mas reclama do isolamento da educação na pauta dos governos: "É necessário que a educação seja colocada no topo da agenda política de cada nação", defendeu o coordenador do E-9.
É o que reivindica também o documento que será apresentado amanhã. "A leitura dos relatórios desses nove países sugere que, na maior parte dos lugares, a educação é ainda tratada isoladamente em relação às demais políticas públicas", critica o texto, citando como exemplo desse problema a dificuldade em obter os dados estatísticos para a preparação do próprio relatório em alguns países, onde o controle de informações oficiais está fora da esfera dos ministérios da Educação.

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