Brasília, 21 (AE) - "Quem serão os responsáveis pela gestão da agricultura e do meio rural daqui para frente?". Representantes da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e para Agricultura e Alimentação (FAO), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e de outras entidades tentarão responder a esta pergunta amanhã (22), em debate depois do lançamento do livro "Juventude e Agricultura Familiar: Desafios dos novos padrões sucessórios"
coordenado pelo sociólogo Ricardo Abramovay, da Universidade de São Paulo (USP).
"A questão sucessória no campo não pode ser encarada estritamente como um tema microeconômico da administração empresarial", afirmam os autores do livro, publicado pela Edições Unesco. Eles alertam que esse problema se reflete no destino de regiões que "passam por processos severos de êxodo rural". O censo que a Confederção Nacional da Agricultura (CNA) fez entre 400 mil famílias no País (equivalente a 10% do número de agricultores), no início do ano, revelou um dado preocupante: apenas 29,8% dos filhos de proprietários de terras continuam trabalhando nas fazendas. A maioria migrou para as cidades.
Segundo a CNA, somente 5,8% da população rural tem até 35 anos de idade. A faixa imediatamente superior (de 36 a 45 anos) conta apenas com 12,9% do total. A maioria dos que vivem no campo está na faixa etária de 56 a 66 anos (26,1%). O grupo de idosos com mais de 66 anos, incluindo com idade superior a 85 anos, soma 33,2%.
Para o sociólogo e engenheiros agrônomos que pesquisaram o processo sucessório em 53 famílias de Saudades (SC) e escreveram o livro que será lançado ammanhã, "o envelhecimento da população rural deve ampliar a quantidade de unidades produtivas abandonadas ou que servem simplesmente como moradia".
Os autores do livro lembram que até 30 anos atrás os jovens seguiam a vocação dos pais e permaneciam no campo. Mas, agora, está caindo o estímulo para manter a mesma profissão dos pais. Com base na pesquisa em Saudades, um município no Oeste catarinense onde a população rural é maior que a da cidade, os autores concluírem que a maioria dos jovens gostaria de se realizar profissionalmente na agricultura. Mas acabam seguindo outro caminho, por falta de projetos economicamente viáveis.
As filhas mulheres, que dificilmente conseguem suceder os pais no comando das terras, estão preferindo migrar para as cidades com o objetivo de fugir do antigo papel subalterrno destinado a elas, de ser simplesmente mães e esposas. "As moças deixam o campo antes e numa proporção muito maior que os rapazes", informam os autores do livro. Para elas, dizem os pesquisadores, "a permanência no campo é vivida como fatalidade e não como opção". Com o êxodo das mulheres, acaba dificultando a formação de novas famílias de agricultores.

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