Centenas de famílias reuniram-se, neste domingo (26), na sede da Acel (Associação Cultural e Esportiva de Londrina), para participarem da 68ª edição do undoukai, uma das celebrações mais tradicionais mantidas pela colônia japonesa em Londrina. O evento é um tipo de gincana esportiva, com atividades recreativas que envolvem competições e desafios. Mas muito além da disputa, o objetivo é a interação social, a confraternização, o trabalho em equipe e, principalmente, o exercício de pertencimento e a preservação da cultura nipônica.

Formada pela junção das palavras undou, que significa movimento, e kai, que se traduz em coletivo e união, a atividade reforça o vínculo com a comunidade, unindo várias gerações em um clima de cooperação e festividade. A maioria das provas é separada por faixa etária. Começa em dois anos e vai até aqueles que já cruzaram a linha dos 80 anos de idade. Mas o ponto alto são as competições que unem várias gerações em torno de um mesmo objetivo.

Uma delas, a de revezamento de bastão, talvez seja a que melhor simboliza a essência do undoukai. O corredor que recebe o objeto não começa do zero. Ele herda a velocidade, o suor e o esforço de quem veio antes. A tradição japonesa do undoukai, iniciada no final do século 19, chegou ao Brasil no início do século seguinte, trazida pelos primeiros imigrantes a desembarcarem no país e que em meio a muito trabalho para progredir na nova pátria, atuaram fortemente também na preservação de sua cultura e de seus costumes. Às gerações seguintes, coube a missão de nunca deixar o bastão cair.

Imagem ilustrativa da imagem Undoukai celebra tradição japonesa em Londrina

Assim como um competidor precisa ajustar seu passo ao de quem está chegando, a Acel ajusta o movimento, fazendo com que a tradição encontre seu espaço na atualidade. O undoukai, que começou como uma atividade direcionada apenas à colônia japonesa, com o tempo foi abrindo espaço para outras culturas.

O momento da refeição também passou por mudança. No início, o horário do almoço era marcado pelo compartilhamento dos bentos preparados pelas famílias, a refeição japonesa tradicional embalada para viagem, semelhante à marmita dos brasileiros. Mas com a passagem dos anos e a ausência das batchans (avós), que produziam os bentos consumidos no undoukai, a Acel passou a comercializar as refeições para que o ritual da confraternização pudesse ser mantido. Assim, o “bastão” continua circulando, mas a forma de segurá-lo se adapta para que a corrida nunca cesse.

“Isso é a comunidade japonesa, isso é a cultura japonesa. Não é só esporte, mas a amizade, a harmonia, a alegria e a preservação da saúde. É um dia diferente. Todos que participam ganham algum brinde, mas não pelo desempenho, mas como uma forma de agradecer pela participação”, comentou a presidente da Acel, Luzia Mitsue Yamashita Deliberador. “Desde como se organiza, que é tudo feito por voluntários, até a refeição, a premiação, tudo tem a ver com a cultura japonesa e é isso o que a Acel tenta manter. Preservar a cultura para as futuras gerações. E está dando certo.”

O presidente do Conselho Deliberativo da Acel, Roberto Lima, lembrou que a tradição do undoukai se mantém viva muito pela atuação dos 13 kumis existentes em Londrina, que são os núcleos regionais da colônia japonesa. Com a chegada dos primeiros imigrantes e a dificuldade com a língua, os japoneses se organizaram em comunidades, divididas por bairros. Hoje, os kumis são mantidos mais por afinidade do que por localização geográfica e deles fazem parte também representantes da cultura ocidental.

No evento deste domingo, participaram cerca de 800 pessoas e Lima destacou a longevidade do undoukai em Londrina que em 71 anos de atividade da Acel só deixou de acontecer por três anos, durante a pandemia de Covid-19. “No Brasil, temos as sociedades japonesas que fazem o undoukai continuar. No Japão, essa tradição está se perdendo e hoje, acontece mais em escolas.”

A administradora de empresas aposentada Sônia Yuriko Tanaka Hirasaki participa do undoukai desde criança. Ela ia acompanhada dos pais e se recorda que era a festa mais aguardada do ano. “É um legado que a gente vem trazendo de geração em geração, está muito no fundo do coração e é uma coisa muito preciosa para nós.”

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| Foto: PEDRO HENRIQUE MATSUO

Hirasaki, que já passou por muitas fases nas competições do undoukai, neste domingo aguardava na fila para disputar a prova destinada ao público acima dos 60 anos, que desafiava as participantes a pegarem feijões com hashis, os palitinhos utilizados como talheres, e depositá-los em um copo. “É uma prova que requer mais habilidade e concentração. Já sou da terceira idade e isso é muito gratificante porque comecei ainda criança. É muita alegria participar desse encontro de famílias, de parentes e de amigos.”

O vendedor Gabriel Garbe sempre teve afinidade com a cultura japonesa. Quando adolescente, praticou a arte marcial do kendo e hoje, casado com uma descendente de japoneses com quem teve dois filhos, considera importante manter viva a cultura da família da esposa e preservar o legado de seus ancestrais. “É uma cultura tão bonita, tão gostosa, temos que participar. Não podemos deixar morrer”, disse Garbe. “Quando eu era criança, sempre participava. Depois, parei de vir, mas neste ano, retomamos por causa dos meninos. É uma memória afetiva que tenho e quero que eles tenham isso também”, disse a esposa de Garbe, Priscilla Shirahige Yamamoto.

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Desde que se mudou de Curitiba para Londrina, há quatro anos, Fernanda Martins Chapula, casada com um descendente de japoneses, faz questão de participar do undoukai acompanhada da sogra, do marido e dos cinco filhos. “Em Curitiba não tem, mas sempre via as reportagens mostrando o undoukai aqui em Londrina e achava muito legal. Quando viemos morar aqui, decidimos trazer as crianças para elas se integrarem e elas adoram. A gente também participa do undoukai realizada pelo kumi ao qual pertencemos. É uma tradição muito bonita.”

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