Genebra - A irlandesa Mary Robinson, Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos desde 1997, levou adiante com valentia durante cinco anos uma infatigável cruzada pelos direitos dos oprimidos, que se caracterizou por enérgicas advertências que algumas vezes irritaram os poderosos, da Rússia à China, passando pelos Estados Unidos.
‘‘Esta é a última vez que me dirijo à Comissão na qualidade de Alta Comissária’’, ressaltou Robinson no início do discurso de abertura da 58ª sessão da comissão de direitos humanos da ONU. ‘‘Sei que minha voz às vezes incomoda’’, reconheceu. No ano passado, na abertura da mesma reunião, Robinson anunciou que não lutaria pela reeleição em setembro de 2001. Entretanto, a pedido do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, decidiu permanecer no cargo por mais um ano.
A ex-presidente da República da Irlanda, 57 anos, explicou que, quando foi designada para o cargo, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, aconselhou-a a ‘‘se manter como uma ‘outsider’ no seio das Nações Unidas’’.
Um conselho que se adapta bem ao temperamento independente de Robinson, apesar de que às vezes teve que contemporizar, inclusive com a opinião pública, usando uma linguagem mais diplomática, decepcionando alguns de seus admiradores. No entanto, sua assessoria insiste em que ‘‘diante de seus interlocutores, Mary Robinson sempre disse o que pensava, sem se intimidar’’.
Quando, no ano passado, na abertura da sessão da comissão, anunciou sua intenção de abandonar o cargo, Kofi Annan e muitas outras personalidades do mundo inteiro a fizeram retirar sua renúncia. Desde então consagrou todas suas forças e sua paixão à Conferência Mundial contra o Racismo que se realizou em setembro de 2001 em Durban (África do Sul). A advogada, que lutou a favor da reconciliação de protestantes e católicos na Irlanda, foi afetada pela virulência dos debates e pelas dificuldades dessa conferência.
Ontem, entretanto, repetiu que o compromisso adotado em Durban é um programa cujo cumprimento é imprescindível. Além do desafio de Durban, Robinson explicou que ‘‘nunca teria imaginado que tal coisa fosse ocorrer: os fatos de 11 de setembro, que qualifiquei de crime contra a humanidade, tiveram um profundo impacto (...) no trabalho de meu comissariado’’.
Frente à necessária luta internacional contra o terrorismo, Robinson exortou os Estados Unidos e seus aliados a não instaurarem normas de exceção em matéria de detenções, de encarceramentos e de processo judicial, que vulneraram os direitos humanos.
Russos e chineses acusaram Robinson de lhes perseguir, por causa de suas firmes denúncias contra ‘‘as operações de limpeza’’ do exército russo na Chechênia ou as violações dos direitos humanos na China. Apesar dessas denúncias, Robinson não conseguiu mudanças expressivas na política de Moscou e nem de Pequim.
Quanto ao conflito israelense-palestino, Robinson criticou as duas partes pela violência, e lançou contínuos apelos em favor do diálogo.
Antes de aceder ao cargo de Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, ela foi presidente da Irlanda durante sete anos. Feminista e católica, casada com um protestante, Robinson manifestou várias vezes sua vontade de continuar lutando pelos direitos humanos quando deixar a ONU. Afirmou que seu trabalho poderia ser mais eficaz, uma vez liberada das obrigações do cargo e das restrições orçamentárias da ONU.
A 58ª sessão da Comissão conta com a presença de representantes de direitos humanos de 53 Estados membros, países observadores e mais de 200 Organizações Não-governamentais (ONGs).
Pela primeira vez desde 1947, os Estados Unidos não farão parte dos membros da Comissão e manterão o status de observador. Depois do discurso de Robinson, os ministros de diferentes países tomarão a palavra hoje.

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