Uma sexagenária forte e moderna
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domingo, 23 de abril de 2017
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local
No dia 1º de maio a Concha Acústica completa 60 anos de sua inauguração. A obra foi encomendada pelo então prefeito de Londrina, Antônio Fernandes Sobrinho, que desejava um coreto no local, já que a terceira rodoviária de Londrina que funcionava ali foi desativada em 1952 e o espaço só possuía um "Ponto de Jardineiras", um local onde se reuniam as charretes e carroças de aluguel da cidade. O engenheiro estrutural José Augusto Queiroz relata que possuía uma revista chamada Arquitetura e Engenharia e nela havia uma fotografia de uma Concha Acústica que já havia sido construída na região Sudeste. "Eu levei essa revista a meu diretor, que entregou para o Antônio Fernandes Sobrinho", destaca. Ele ressalta que fez uma adaptação do projeto estrutural em relação ao projeto da revista, que era um pouco menor. "O nosso projeto era maior e a concha era mais inclinada, o que era um desafio, já que ela tende a cair, ainda mais quando bate o vento", explicou.
"Foi o projeto mais desafiador que tive até hoje, porque naquele tempo tinha pouca gente para calcular aquele projeto com uma régua de cálculo", instrumento que ele classifica como o computador daquela época.
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O projeto do anfiteatro foi realizado com mão de obra terceirizada. "Conversei com um marceneiro italiano e perguntei se ele poderia fazer as formas e ele disse que podia. Era um marceneiro muito bom. Depois essas formas receberam o concreto. Os pisos e bancos foram feitos por funcionários próprios da prefeitura", relembra.
Queiroz se recorda do dia em que a forma foi retirada. "Era um sábado, dia 20 de abril. A obra estava 90% pronta. Retiramos a forma às 15 horas. O concreto ficou lindo de morrer. A Concha nunca deveria ter sido rebocada, porque ela foi muito bem feita", conta. Ele chamou o motorista e pediu para que avisasse Fernandes Sobrinho. "Ele me viu sentado no banco que ficava no lado direito. Eu estava no canto, ele sentou ao meu lado e me parabenizou", relembra. "Que coisa linda está isso. De onde você é?", disse o prefeito valorizando o engenheiro. "Todas as vezes que me perguntam sobre essa história, eu tenho que chorar. A partir dali eu pensei que não poderia mais decepcionar ninguém com o meu trabalho. Pode ser que me dê algum orgulho pelo resultado. Não pela realização em si, mas se está servindo alguém, aí eu me envaideço", destacou.
Se na construção civil se diz que uma obra é projetada para durar 50 anos sem manutenção, Queiroz se orgulha de ver a obra inteira 60 anos depois. "Está novinha", aponta.
INAUGURAÇÃO ARTÍSTICA
Uma das pessoas que estava presente na inauguração é o ex-comerciante aposentado Artur Boligian,atualmente com 87 anos, que tocou violino na inauguração como membro da Orquestra Filarmônica de Londrina. Ele enumera os nomes de alguns dos membros como se o evento tivesse acontecido ontem. "O Mão de Onça tocava pistão, o clarinetista era o João de Melo. Havia 10 ou 12 pessoas tocando violino, entre eles o Salomão e o Luiz Borsato. Tocamos valsa e mais um monte de música. Quando a orquestra tocou Dança Húngara (de Johannes Brahms), uma de nossas violinistas se vestiu como cigana e dançou com pandeiro na mão", relembra. Naquele Primeiro de Maio a Concha lotou. Além da apresentação da orquestra, a programação contou com uma encenação da peça "Morre um Galo na China", de Pedro Bloch, com Iracema Lui e Farid Rosa; apresentação de canto orfeônico com as alunas do Conservatório Musical de Londrina e show da acordeonista Evelina Grandis.
Boligian também relembra de comícios históricos realizados no local como o do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ainda em 1957. Outras personalidades de expressão nacional que participaram de eventos na Concha, como o ex-presidente João Goulart, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.
A Concha Acústica também já se transformou em um picadeiro de circo nos anos 1960, quando trapezistas e acrobatas alemães fixaram cabos entre o edifício Júlio Fuganti e o Centro Comercial.
Na década de 70, estudantes da UEL realizaram a primeira greve estudantil e depois de uma passeata a manifestação foi parar na Concha. Entre os estudantes estavam Marcelo Oikawa, Roldão Arruda, Cleusa Monteiro, Nilson Monteiro, Célia Regina de Souza, Luzia Tieme Oikawa e Marília Andrade, do antigo jornal Poeira.
Em setembro de 1982, mil pessoas participaram de protesto contra a invasão do Líbano por tropas de Israel. Manifestantes chegaram a queimar um boneco representando o então primeiro-ministro Menachen Beguin.
Um dos momentos em que o espaço esteve ameaçado também aconteceu na década de 80. "Eu me lembro do Wilson Moreira querendo destruir a Concha Acústica em 1987. Ele tinha construído o anfiteatro no Zerão e queria derrubar a Concha para fazer um estacionamento no local. Muita gente foi contra. Eles queriam demolir como fizeram com o prédio da antiga prefeitura, que era muito bonito e depois ergueram aquela porcaria que está lá até hoje", ressalta Boligian.
Outro evento marcante foi quando a Praça Primeiro de Maio se "transformou" na Praça São Pedro, durante uma campanha para que o Papa visitasse Londrina, em 1996. Em 2001 foi criado o projeto Sexta na Concha, que possibilitou que o local fosse utilizado por diversos artistas locais. O Dia Mundial do Rock (13/7) também ganhou força e vem sendo uma data que ano a ano tem reunido centenas de pessoas no local.
Plural e multiuso, a Concha Acústica permanece na memória afetiva de muitos e constante no cotidiano da população londrinense. Seis décadas depois o espaço continua cumprindo o seu papel. É o espaço para namoros entre comerciários na hora do almoço, serve como arena de debates políticos em manifestações, já serviu de espaço para distribuição de sopão para moradores em situação de rua e continua sendo palco para muitos músicos. Com tantos anos passados, seu desenho permanece moderno e foi incorporado como uma referência dos londrinenses.