Uma relação mais afetuosa
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domingo, 18 de novembro de 2001
Líliam RaÀa<Br>Agência Estado - De São Paulo 
Prestar mais atenção no paciente do que na doença. Trata-se de um comportamento que a maioria dos hospitais está revendo, discutindo e adotando com sucesso. Não é nada novo para algumas instituições, exceto pela oportunidade de mostrar a eficácia na qualidade de vida e melhora de seus pacientes para quem nunca acreditou que isso fosse possível. ''A mudança dentro dos hospitais para atingir o atendimento mais pessoal é estrutural e regimental, o que dificulta um pouco o processo'', conta Sandra Grisi, médica pediatra do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas e coordenadora do Centro de Referência Nacional de Saúde da Criança.
As instituições que apostaram na mudança sentiram de imediato o resultado. ''A diferença é muito grande quando procuramos uma aproximação menos impessoal com os pacientes, o segundo encontro é sempre precedido de sorrisos entre amigos e de mais confiança'', conta Aildamar Barbosa, chefe de enfermagem do Centro Cirúrgico do Hospital Nove de Julho e criadora do Programa de Visitação Antecipada.
O projeto da enfermeira era uma sonho que contou com apoio instantâneo dos médicos. Os pacientes com cirurgia marcada no hospital Nove de Julho são convidados para conhecer o centro cirúrgico antes da internação. ''Mostramos a eles os equipamentos e o hospital. Conversamos muito e nessa hora temos um importante histórico para prescrição de enfermagem'', revela Aildamar.
O programa tem seis meses e o acompanhamento continua quando o paciente ganha alta. As enfermeiras ligam em casa depois de 15 e 30 dias. ''Queremos saber como eles estão se recuperando. Eles nem acreditam, mas gostam muito da atenção.'' Hoje, esse atendimento está voltado para pacientes de obesidade mórbida e ortopedia.
Dependendo da cirurgia o pós-operatório é mais difícil para os pacientes e, em casa, eles sentem-se mais vulneráveis. Os pacientes da cirurgia de obesidade mórbida por exemplo, são mais suscetíveis à depressão. ''Todos falam de suas dificuldades, o que estão sentindo nesse momento e ficam felizes porque ligamos. Isso facilita a recuperação.''
O hospital e maternidade Sepaco (SP), que há três anos só atendia os funcionários da indústria do setor papeleiro, está dobrando sua capacidade de atendimento no pronto-socorro sem deixar de lado uma das suas preocupações, a decoração. ''Tentamos ficar com menos cara de hospital'', reforça o médico superintendente Tulio Mitio Yamada.
Na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Sepaco, a mãe tem autorização para permanecer com seu filho 24 horas. ''É uma atitude humanitária que serve tanto para as crianças, como para os idosos.'' O incentivo ao atendimento pessoal contagia todo corpo clínico do hospital. A enfermagem, segundo Yamada, tem baixa rotatividade de profissionais. Os mais antigos, cujo perfil de atendimento é mais pessoal, trocam experiências com os profissionais novos, numa declarada preocupação em proporcionar uma assistência mais calorosa.
Alguns especialistas afirmam que a formação do profissional de hoje voltou-se mais para o funcionamento de órgãos e doenças. ''O indivíduo se perdeu como um todo e o avanço tecnológico colocou mais uma máquina entre o profissional e o paciente'', afirma Sandra. A pediatra ressalta que é possível uma leitura mais humanizada dos problemas da pessoa que está sob cuidados médicos, sem o abandono da tecnologia. Para Yamada, a questão é mais ampla: ''Existe um mecanismo imposto pelo mercado que obriga a rapidez do atendimento médico e compromete o sistema de saúde''.


