Uma indicação de filme e um conto de horror
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terça-feira, 02 de outubro de 2018
Patrícia Maria Alves 
Recebi uma mensagem: "Você assistiu ao filme "Terceiro olho" da Netflix?", "Não, é bom?, "Se é bom? Pensa num filme que parece que foi baseado n'O Sexto Sentido', com cenas d'O Exorcista', efeitos especiais d'O Grito', com um toque de 'Sobrenatural', na atmosfera d'A Noite do Demônio'. É uma obra prima indonesiana de terror. Tão ruim que poucos saberiam apreciar". Dei um suspiro para dentro, sabe aqueles chiados de espanto. É tão difícil encontrar bons filmes ruins hoje em dia. (novo suspiro).
Vamos aos contos dos leitores?
Patrícia Maria
PS: Se você escreve, aproveite e envie seus textos para o e-mail [email protected]. Aguardo.
"FEMINI O QUE?"
Tinha acabado de completar seus dezoito anos.
Pegou o carro do pai e saiu, ia levar a namorada ao shopping. Até aí tudo bem, era um rapaz cuidadoso, sempre prudente, em nada era capaz de deixar sua família preocupada, sempre com boas notas, frequentador do grupo de jovens da sua igreja. No caminho certo para ser um homem direito, pai de família, honesto, contra o aborto e a favor da pena de morte, perfeitamente educado nos preceitos da cristandade, cujos valores o acompanhariam por toda sua merda de estrada da vida. Ele só desconhecia um fato: a estrada da vida não tem sinalização.
Filho de pai evangélico e mãe católica, não podia ter outro nome além de Malaquias, uma singela homenagem a um profeta menor do antigo testamento. Após horas passeando no segundo templo mais venerado da cristandade ocidental, o shopping, o pacato Malaquias e sua garota foram embora. Já era tarde, mas isso não impediu que discutissem no portão da casa dela. Deixou-a na calçada e foi embora. Ela chorando, ele indignado, com aquele sentimento do macho de quem está sempre certo e contrariado. Decidiu deixar tudo de lado e se concentrar em algo a fazer: ainda precisava revisar algum conteúdo chato da aula de Literatura para o dia seguinte. O resumo duma porcaria de livro de um tal Kurt Vonnegut, cuja figura a professora amava de paixão, portanto precisava deixar o resumo neutro, sem emitir opiniões pessoais a respeito de qualquer odiosa leitura obrigatória que não fosse de caráter cristão.
Num calor de verão, na cidade de mil cores, Malaquias dirigia o carro de volta para casa, quando fez uma conversão, numa rua bastante iluminada, mas de pouca movimentação. Como sabia que àquela hora as chances de um carro passar por ali eram quase nenhuma, ele nem se preocupou em reduzir a velocidade para virar a esquina. Quando viu, um policial atravessava a rua, com algum tipo de metralhadora nas mãos. Como se atendesse a um chamado, a um instinto animal, ou a um mero e perverso desejo de ver o outro prejudicado, Malaquias acelerou. Possuído, num único e restrito instante, por uma malícia oculta em sua índole perfeita, virou o volante em direção ao homem com a arma. Jogou o carro em cima dele, sem o menor sinal imediato de receio ou indecisão. Nem sentiu remorso.
Malaquias, garoto ainda, cidadão de bem, assassino, educado na incorruptível estrutura da família tradicional, acima de qualquer suspeita, trazendo um olhar de crueldade diabólica e desmedida sob o cenho. Passou com o carro em cima do homem, tão rápido que o policial nem teve condições de interpretar a cena. Era um homem morto. Malaquias desceu do carro, olhou para todos os lados da rua, das fachadas de pequenas lojas fechadas, uma praça meio afastada, mas vazia. Sem sinal de quaisquer olhares ou câmeras, se aproximou do atropelado, olhou com atenção, e entendeu que o havia matado.
Um pouco adiante ele viu a plaqueta do local para onde o policial se dirigia. Uma sede regional da Polícia Militar Rodoviária. Pegou a arma. Numa das laterais havia a inscrição Fz Ass 5,56 - IA2. Malaquias desconhecia a nomenclatura, mas sabia o que era a pequena chave no lado oposto, cuja função era travar e destravar a arma.
Sentiu um arrepio na espinha, acompanhado de uma ideia: queria atirar em alguém. Queria não, precisava. Mesmo que fosse de longe, sem ninguém ver, tinha que descobrir como era atirar em alguém. Era um garoto, com acesso a uma arma.
Foi quando o celular vibrou em seu bolso e o despertou do transe.
Entrou no carro e arrancou dali, deixando o cadáver estirado sob a luz do poste. Dirigia e olhava com admiração a arma no banco do passageiro. Pegou o celular e leu a mensagem que vinha da namorada terminando o relacionamento, principalmente porque sentia que não gostava mais dele e não queria continuar e lhe causar algum trauma no futuro, que o namoro não estava mais dando certo, entre outras coisas triviais que encerram relacionamentos.
Foi aí que Malaquias soube então em quem queria atirar. Deu a volta no carro e correu para a casa dela. Ao passar por uma travessa onde, ele sabia, dormia um morador de rua, Malaquias parou. Desceu do carro com a arma na mão à procura do mendigo, precisava testar a arma, ver como aquilo funcionava. Quando o encontrou, chamou baixinho:
"Ou, psiu. Acorda maluco".

O homem resmungou, despertando do sono de aguardente barata e viu a arma na mão do rapaz. Assustado, escorou as costas na parede e ficou ereto. "Que isso rapaz? Que tá acontecendo?" "Olha só, seu fodido, seu fracassado inútil. Olha que linda essa joia", Malaquias murmurava, com tensão na voz, uma veia saltada na testa. "Olha só? foi Deus que colocou essa ferramenta em meu caminho com um propósito, livrar alguém do sofrimento, talvez seja você, talvez seja mais do que uma pessoa só. Acredito que Deus coloca essas coisas no teu caminho por uma razão, e acho que sei que razão é essa. Salvar os desgarrados, ou livrar o mundo deles".
O morador da praça mijou nos trapos que chamava de calças, tremia e gaguejava, aterrorizado enquanto Malaquias teorizava desígnios divinos. "A Paz do Senhor esteja contigo", Malaquias vociferou finalmente e puxou o gatilho. Viu, tomado de espanto, o homem ser atravessado por um punhado de balas, só tirou o dedo do gatilho quando não aguentou os coices dos disparos e a arma começou a derivar para o lado. Quase não conteve o entusiasmo. Era como se carregasse a genuína espada de São Miguel Arcanjo.
Voltou para o carro, deu partida e acelerou, gritando e gargalhando de ansiedade e prazer, ainda sustentando o olhar diabólico. Chegou em frente a casa da namorada, "tô aqui na frente, desce vamos conversar" mandou no celular dela. Escondeu a arma no assoalho do carro, atrás do banco do passageiro, para evitar que a garota a visse.
Esperou aparentando paciência, até que a menina surgiu no portão, foi até o carro e entrou. Seus olhos vermelhos denunciavam o choro que certamente não havia cessado desde a hora em que a deixara. Malaquias, sem dizer palavra, ligou o carro e andou um pouco, parando alguns metros à frente, sob um flamboyant enorme que obliterava parcialmente a iluminação da rua.
"Eu cometi um erro", começou o rapaz. "Agora, vou corrigir esse erro".
"Malaquias, não quero mais ficar com você, independente do que você possa me dizer".
"Não amor. Não tenho a intenção de dizer mais nada", e puxou a arma de trás do carro, apontando-a para a garota.
"Peloamordedeus, o que é isso? O que você vai fazer? Onde arranjou isso?", mil perguntas vieram na cabeça dela ao ver aquele objeto fosco esverdeado. "Malaquias, onde é que você arranjou esse fuzil?"
"Fuzil? Como é que ela sabe o que é isso?", pensou ele, "Mas? então não é uma metralhadora. É só um fuzil". Não ouvia as lamentações da jovem, absorvido em seu decepcionante e ignorante raciocínio a respeito de armas e suas nomenclaturas. Ainda assim, aquela arma lhe veio com um propósito e tratou de o colocar em prática.
"Sai do carro", disse ele e a moça obedeceu prontamente, como se fosse se ver livre daquilo e ir em busca de ajuda.
"Não atira em mim, por favor, Malaquias", soluçava de pavor. "Quer me matar porque eu tô terminando o namoro? Isso é feminicídio... p-por v-v-favor, por v-vavor, em-nome-de-deus, não", apelou para tudo quanto pôde em desespero, o rosto lavado em lágrimas, uma profusão de saliva orbitando os lábios, tecendo fios a cada palavra que ela dizia.
"Femini o que?" murmurou ele, mas descontinuou o raciocínio. Gritou para que ela parasse perto do tronco da árvore e, de dentro do carro, puxou o gatilho, mais uma vez executando um disparo múltiplo que fez com que a arma escoiceasse seu ombro e caísse para o lado. Estraçalhou o abdômen da ex-namorada, que caiu sem vida na calçada.
Antes de sair, ele ainda olhou calmamente o corpo da garota morta. Cerrando os dentes, balbuciou com rancor: "Não namora comigo, não vai namorar com mais ninguém, puta. Mulher é tudo igual mesmo". Jogou o fuzil em cima do corpo dela e saiu, sem acelerar muito. "Adeus, vagabunda", murmurou e desapareceu, virando a esquina.
Sequer falou o nome dela.
L. NOLVZER
Existem certas realidades que são tão terríveis quanto qualquer fantasia. Aqui nesta coluna publicamos literatura. São textos fictícios, histórias irreais, com o propósito de incentivar a leitura e o entretenimento a partir da escrita. Mas nos outros canais do jornal nós publicamos notícias verdadeiras, apuradas por profissionais competentes e com fontes seguras, seriedade e respeito pelo leitor.E, a realidade do feminicídio já foi notícia diversas vezes em nossas páginas. O que evidencia uma estatística muito grave. Se você é mulher e vive em situação de violência ou se você conhece alguém que precisa de ajuda. Ligue para a Central de Atendimento à Mulher - 180 -e denuncie.
Abraços e até a próxima semana.


