Uma flor que nasceu à beira do caminho
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de março de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Helena Kolody escreveu um poema onde ela diz que traçou a giz seu nome no muro. Veio a chuva, o nome apagou. Tudo muito óbvio, natural, sem dores nem rompantes. Enfim, uma visão realista e cruel da fama, na exata medida que não deixa espaço para vaidades inúteis. A poeta sabe que o tempo, indiferente às paixões humanas, encarrega-se de lavar os muros sem nuances de piedade. A sina da eternidade é ser silenciosa, enquanto agiganta o abismo sem identidade.
A aparente singeleza dos versos, de um estranhamento incômodo que só a verdadeira arte possui, mostra esse lado de desapego da autora. Ou a sua sabedoria. Afinal, que é a fama senão o fogo fátuo do momento? O reconhecimento tardio à sua obra, as paparicações literárias realmente não lhe toldaram a visão. Aquilo que turva os olhos e os pensamentos é a idade mais de 80 anos , as lembranças que aos poucos embranquecem aqui e ali, permanecendo vívidos os momentos mais antigos.
Porém, se fosse possível manter traços para a posteridade, com certeza não seria como poeta que ela gostaria de ter sua efígie no muro do tempo. Iria preferir a imagem da mulher que doou a vida à ciência do magistério. E se lhe fosse facultada a extrema graça de novamente voltar a este mundo, iria pedir para mais uma vez ser professora. A condição de educadora continua a ser, realmente, seu maior orgulho.
Solteira, Helena cuidou durante muitos anos de extensa família: centenas e centenas de alunas que passaram pelas suas aulas de Biologia e que as chamava de suas filhas. Destino meio torto, mas foi com elas que dividiu a imensa ternura dalma, presenciou de perto a agitada passagem da mocidade para a vida adulta e testemunhou os vôos que empreenderam. Todas se foram. Ainda hoje recebe visita de muitas delas e há sempre um pouco de primavera e luz no cálido toque do passado.
Da poesia pouco tem a dizer. A explicação é sempre a mesma: foi uma flor que nasceu à beira do caminho. Veio por acaso, como suavidade na sua distração. Afinal, a poeta não cuidou para que seu destino invadisse territórios literários. Escrever foi consequência do mágico encontro dos encantos e desencantos da vida com a pulsação das letras. Enfim, visita sorrateira que não pediu licença para entrar na alma.
Aos olhos da professora absurdamente belos e azuis a vida se descortina em sensações e palavras que ela descreve com a delicadeza dos eleitos. Fosse o contrário e jamais criaria versos como estes: Nem o bailado leve das avencas/Consola a água prisioneira. Ou então: Cai a areia da vida/Na ampulheta da morte. Depois dessas linhas, só mesmo silêncios emocionados.


