Londrina – Quando cai a tarde de sexta-feira, o público começa a chegar. Ao som dos atabaques, os cânticos abrem os trabalhos. A luz negra cria um clima etéreo e tudo parece passar mais devagar; do rodado das longas saias brancas às fagulhas do fogo do caldeirão.
No final dos pontos (cânticos), a gargalhada de um menino branco que acompanha a mãe quebra o silêncio. Pudera, é a primeira vez dele ali. A mãe, envergonhada, pede desculpas. Ela também viera duas ou três vezes escondida da família católica. Com voz e fisionomia já alteradas, mãe Bete pergunta se está tudo bem. A reunião continua.
A partir daí, segundo elas, quem fala são as entidades. Preto Velho interage com Sete Saias, incorporada por Cláudia. A mulher de família católica continua sentada em uma cadeira branca de plástico assistindo à gira, como chamam a reunião. A essa altura, os risos do menino já dão lugar a olhos arregalados de curiosidade.
O marido da interlocutora permanece no carro estacionado três casas acima do centro. Não admite a mulher na "macumba". Um menino bate no vidro e o convida para participar. Insiste até conseguir levá-lo. O homem vai de cara fechada. Contrariado, mas vai. Ele entra analisando cada centímetro quadrado do centro. Com um aceno de cabeça mudo, cumprimenta a todos e se escora na parede, com os braços cruzados.
"Já viu que aqui ninguém mata ninguém, né? Não é nada daquilo que falam. Nós estamos aqui para fazer o bem, as pessoas que são más. Fazem pedidos para prejudicar os outros. Aí depois falam que o santo que é mal", dispara Bete, ou a entidade. O homem só faz que concorda com a cabeça.
No outro canto da sala, Cláudia incorporada por Sete Saias conversa com uma jovem de vinte e poucos anos, vizinha que visitava o centro pela primeira vez. "Até que enfim atravessou a rua, hein? Apareça mais vezes". A moça agradece a receptividade e promete voltar.
"Quem procura a macumba ou é por curiosidade, porque já foi católico, crente de várias igrejas e não encontrou o que procurava, ou ainda quem quer fazer algum trabalho milagroso. Todos são bem-vindos, mas explicamos que não é nada disso. Se eu pudesse fazer trabalho pra ganhar dinheiro, acha que estaria nessa casa velha?", diz Cláudia.
Duas horas depois, os ajudantes começam a encerrar os trabalhos. As mães de santo seguem para os quartos para retirar as vestimentas. Os primeiros visitantes começam a ir embora. Alguns se reúnem nos fundos da casa para conversar. No dia seguinte, o advogado vai voltar para os processos, a professora para a sala de aula, o moço do atabaque para seu projeto cultural de Maracatu para crianças carentes.
"Somos todos pessoas de bem. A única coisa que pedimos é respeito. Infelizmente, muitos preferem o anonimato porque a perseguição ainda é grande. Não estamos fugindo pelo mato, mas as correntes ainda são visíveis. O preconceito velado também machuca", lamenta Bete. Às 22 horas, o silêncio já toma conta da Rua Humberto Picinin. (C.F.)

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