Curitiba- Uma parada para um cafezinho, fez João Vítor Mancini Silvério, de 19 anos, chegar alguns minutos atrasado no primeiro dia de aula. ''É o meu único vício'', justifica o jovem brincalhão. Ele é o primeiro portador de Síndrome de Down a ingressar numa faculdade no Estado e o terceiro do Brasil. Calouro da Universidade Tuiuti do Paraná, João participou das aulas, fez uma visita às dependências do campus, no Jardim Schaffer. ''A sensação é bem legal. Aqui é bonito, tem espaço pra correr. Acredito que o pessoal está bem à vontade comigo'', disse.
Aluno do curso de bacharelado em Educação Física, escolheu a área por ter paixão por esportes. De futebol, basquete, tênis e hipismo João já praticou um pouco. ''Quero ser professor de portadoras de deficiências e personal trainner. Mas acima de tudo ser um bom profissional'', deseja João, natural de São Bernardo do Campo, em São Paulo, e residente de Curitiba durante quase toda vida. ''Estou orgulhoso e muito feliz por estar aqui. Sempre tive a confiança de que iria conseguir'', afirma.
''Eu sabia que ele seria meu colega porque tinha lido no jornal. Acho que vai ser muito bom ter essa experiência, afinal muitas pessoas especiais param de estudar no Ensino Fundamental'', elogia a estudante Luisa Ventury, de 19 anos. João lembra que será preciso, às vezes, paciência dos professores e dos colegas, embora espere tratamento igual aos dos outros alunos.
''Tenho algumas limitações. Preciso de atenção porque me disperso com facilidade e preciso de tempo diferenciado para fazer as provas. Posso faltar eventualmente por questões de saúde também'', explica o jovem de fala articulada, resultado de um trabalho de cinco anos junto ao Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI), que ajuda a criança a raciocinar e desenvolver o vocabulário em situações cotidianas.
Para a mãe, a secretária Roseli Mancini, de 48 anos, o ingresso na universidade é uma vitória para a família e amigos, mas também motivo de preocupação. ''A faculdade é uma porta para a vida adulta. Ele ainda é inocente e até então, sempre esteve protegido nas escolas'', relata. ''Sei que ele terá algumas dificuldades com disciplinas como Anatomia e Fisiologia que são bem difíceis. Mas vamos ajudá-lo e se preciso, estudo junto'', disse a mãe.
Além de João, no curso de Educação Física está matriculado outro aluno especial, portador de deficiência visual. Para ambos, a Comissão Educativa de Inclusão da universidade fez uma capacitação com os professores para lidar com cada deficiência. Foi durante a aula que a professora Hélia Soares aproveitou para conscientizar os alunos. ''Peço que tenham paciência e compreensão. O João necessita de um tempo a mais para resolver as atividades e provas'', informou a docente.
''É um desafio para os professores e a proposta é agir com naturalidade''. A mãe de João também foi convidada para relatar a vida escolar do filho para os professores. ''Ele foi estimulado desde o 5º dia de vida, frequentou escolas regulares, praticou esportes e sempre foi respeitado nas suas limitações. Isso explica a conquista dele'', ressalta a professora.

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