Curitiba - Casos chocantes de violência contra a mulher chamaram a atenção dos paranaenses nas últimas semanas. Crimes como sequestro, estupro coletivo e tentativa tomaram conta das manchetes da imprensa estadual e nacional. O mais grave é que em muitos episódios a vítima já haviam denunciado o agressor.
Conforme dados de 13 das 16 Delegacias da Mulher existentes no Paraná, em 2012 foram registrados 28.104 boletins de ocorrência de violência contra mulheres. Levando em consideração a população feminina dos 13 municípios com informações levantadas (2.266.257, baseado no Censo de 2010), isto representa que uma em cada 80 moradoras destas cidades relatou um caso de agressão no ano passado. Em 2011, as delegacias especializadas registraram 30.651 BOs, confirmando uma redução de 8% de um ano para outro.
"Infelizmente o número de denúncias é pequeno. E ainda tem aqueles agressores que ficam sem pagar pelos crimes porque grande parte dos BOs nem sequer chegam a virar inquéritos. As vítimas acabam desistindo de levar os casos adiante. É necessária uma série de fatores para mudar este panorama: desde a conscientização da população, a real punição dos criminosos e um melhor atendimento dos casos por parte das autoridades policiais'', afirma o procurador de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional (Caop) dos Direitos Humanos do Ministério Público (MPPR), Olympio de Sá Sotto Maior.
Para ele, deve ocorrer uma "mudança de mentalidade" para que se consiga reduzir a quantidade de ocorrências. "Muitas mulheres ainda sofrem violência psicológica e sexual. Por isso é importante se ter uma ampla e qualificada estrutura para atender estes casos'', destacou.
A assistente social da Organização Feminista Sempreviva, Sônia Coelho, comenta que há poucas políticas públicas tanto para a prevenção da violência quanto para o acolhimento das vítimas. "Faltam políticas públicas e orçamento para os Estados e municípios aplicarem medidas contra a violência. E essas medidas precisam ser articuladas, desde ações educativas de prevenção até o atendimento médico, psicológico e social'', destaca.
A assistente social aconselha as mulheres que necessitem fazer a acusação sobre algum caso de agressão a entrarem em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo número 180, válido para todo o País. Neste número, segundo Sônia Coelho, a vítima relata o problema e é aconselhada sobre as entidades que pode procurar.
A maior quantidade de denúncias em 2012 foi registrada em Curitiba (9.435), seguida por Londrina (3.829) e Ponta Grossa (3.339). Em Londrina, de um ano para outro, a unidade especializada teve um crescimento de 12% no número de denúncias. Em 2011 foram 3.418 BOs registrados.
"Verificamos que muitos dos registros se referem a uma mesma pessoa, por exemplo. Ela faz a denúncia, mas permanece na companhia do agressor, porque em muitos casos existe uma dependência emotiva. Várias vezes constatamos que a mulher era a provedora da casa, mas não deixava o companheiro que seguia cometendo as agressões'', destaca a titular da Delegacia da Mulher de Londrina, Elaine Aparecida Ribeiro.
Conforme a delegada, a agressão contra a mulher é um tipo de crime que atinge todas as classes sociais. Entretanto, as vítimas da classe média e baixa são as que mais procuram auxílio. "A violência atinge mulheres de todas classes, é indiferente. O que muda é que parte delas procura a delegacia, e a outra resolve a questão de outra maneira'', completa.

Casos
Entre os casos de violência está o da jovem que teve parte do corpo queimado pelo ex-namorado em Londrina, no dia 5, mesmo depois de fazer um BO na delegacia. A jovem sobreviveu, mas teve que ser internada em um hospital da cidade. No último dia 19, um homem ateou fogo no carro onde estava a esposa, e abandonou o veículo na Estrada da Graciosa, na descida para o litoral. A mulher foi internada e acabou não resistindo aos ferimentos. Em outro caso, na semana passada, o ex-marido de uma enfermeira foi preso acusado de contratar três homens para agredir e estuprar a ex-mulher na capital, em novembro do ano passado. Já em Joaquim Távora (Norte Pioneiro), uma mulher de 27 anos foi feita refém por mais de 32 horas pelo ex-companheiro. O caso ocorreu em 10 de janeiro e o homem foi preso.

Imagem ilustrativa da imagem Uma em cada 80 mulheres denuncia agressão



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