Uma doença que mutila os pés e mata
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sábado, 20 de março de 2010
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Londrina - Nos dizeres da própria Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a negligência de muitos médicos em fazer o diagnóstico correto e orientar adequadamente o paciente permite que o Brasil ainda conviva com milhares de mortes e amputações, anualmente, por causa de infecções nos pés, uma complicação crônica que atinge um em cada quatro diabéticos. Na tentativa de abrir os olhos dos profissionais de saúde, a entidade lançou há alguns dias um guia de bolso para o exame clínico dos pés, com orientações tão fundamentais quanto simples que devem ser observadas.
Entre os diabéticos, os pés merecem cuidados redobrados e a preocupação é tamanha que a SBD tem uma estrutura específica para tratar o problema. A endocrinologista Ermelinda Pedrosa é diretora do departamento de pés diabéticos da Sociedade e alerta que a seriedade se deve ao fato de que muitos pacientes desconhecem as possíveis complicações porque não recebem a orientação devida.
''Em 2006, uma pesquisa apontou que entre 1.350 pacientes, apenas 58% tinham tido os pés examidados. E isso independe da condição financeira. Em 2005, de 311 internautas que responderam uma pesquisa feita pela Sociedade Brasileira de Diabetes, 65% disseram que nunca tiveram os pés examinados'', aponta Ermelinda. A médica observa, porém, que até meados da década de 1980, o procedimento usual era basicamente a amputação: ''O enfoque multidisciplinar vendo sendo implementado nos últimos 20 anos''.
Ermelinda cita que um levantamento feito em 2008 pela colega da Universidade Federal do Sergipe (UFSE), Carla Freire Rezende, estimou que os custos médios com amputações no país eram de R$ 230 milhões) e de cerca de R$ 472 milhões com internações hospitalares. Porém, muito pior que isso é o número estimado de mortes por pés diabéticos, que somaria algo em torno de 12,4 mil por ano. As amputações são estimadas em 46,3 mil pessoas e as internações chegariam a quase 100 mil. Como os dados sobre diabéticos no Brasil são pouco exatos, as estimativas variam de 6,5 milhões de doentes (para o Ministério da Saúde) até 12 milhões (para a SBD). Todos esses dados foram passados pela pesquisadora com exclusividade à FOLHA e, caso ela não tivesse tido problemas com a companhia aérea, seriam apresentados neste final de semana em um congresso médico em Los Angeles, nos EUA.
A endocrinologista explica que a principal causa relacionada com as complicações aos pés de diabéticos é a neuropatia, uma inflação dos nervos que leva à perda de sensibilidade, deformações, dificuldades de locomoção e infecções. ''Tudo começa pela neuropatia. Por isso, o exame dos pés é tão obrigatório quanto o do olho, coração e rins'', aponta a especialista, complementando que outro agravante é a má circulação arterial periférica.
Por isso, Ermelinda insiste que todo diabético, ao entrar em um consultório, precisa tirar os sapatos e ter os pés examinados porque, na grande maioria dos casos, a neuropatia é uma complicação que não carece de exames caros ou desconfortáveis para ser diagnosticada. ''O diagnóstico é eminentemente clínico e o profissional pode sugerir algum outro encaminhamento para aqueles pacientes com um quadro mais complexo'', aponta. Em um trabalho específico desenvolvido pela médica em um hospital de referência em Brasília (DF) reduziu em 77% os casos de amputação entre 2000 e 2004.
Por tudo isso, a SBD lançou recentemente um ''Guia de bolso para exame dos pés diabéticos'' que visa orientar os médicos sobre a melhor forma de avaliação dos pacientes. O manual está disponível no site da entidade (www.diabetes.org.br). Na outra ponta, o Ministério da Saúde irá realizar, no final deste mês, uma oficina sobre o tema para capacitar 120 profissionais de saúde de todo o país. A idéia é que eles multipliquem o conhecimento nos estados.


