Curitiba - Apesar de 53,6% dos brasileiros e 31,2% dos paranaenses se declararem de cor preta ou parda, a desigualdade racial ainda diminui a passos lentos no País. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) 2015, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o nível de instrução desta parcela da população apresenta um atraso superior a uma década, em comparação com o que é registrado entre os brancos. Para especialistas ouvidos pela FOLHA, os dados reforçam a necessidade de se investir em políticas afirmativas e de superação do racismo.
Conforme o levantamento, 45,5% dos estudantes negros de 18 a 24 anos estavam matriculados em algum curso superior em 2014, contra 16,7% em 2004. Em relação aos brancos, a proporção passou, no mesmo período, de 47,2% para 71,4%. Ou seja, embora a melhora seja visível, o percentual de afro-descendentes no ano passado chegava a ser menor do que o de brancos verificado dez anos atrás.
As distorções se repetem nas demais etapas da educação. A SIS aponta que 52,6% dos negros de 20 a 22 anos conseguiram concluir o ensino médio até 2014. Na população branca, a taxa foi de 57,9% em 2004 e de 71,7% no ano passado. De maneira geral, o índice passou de 45,5% para 60,8%. Já entre os jovens de 15 a 29 anos que não trabalhavam nem estudavam, 62,9% eram pretos ou pardos (terminologia usada pelo IBGE) e 69,2% eram mulheres.
Outro dado que chama a atenção é que uma parcela expressiva dos afrodescendentes desenvolve trabalhos informais (48,4%, sendo que a média é de 42,3%). A desigualdade é verificada, ainda, na distribuição de renda e no mercado de trabalho. Dos 10% que, em 2014, ganhavam os menores salários, 76% eram pretos ou pardos. Os negros
representavam 17,4% do 1% mais rico da população brasileira.

EXCLUSÃO

De acordo com a professora de história Lucia Helena Xavier, membro da equipe de Educação em Direitos Humanos da Secretaria Municipal da Educação de Curitiba (SEM), o sistema de cotas contribuiu para reduzir o déficit no acesso dos negros ao ensino superior. No entanto, a trajetória desta população ainda é de desvantagem. "Hoje muita gente defende que não seria mais necessário desenvolver políticas afirmativas como estratégia de inclusão e de justiça social, porque a situação estaria resolvida, mas os dados mostram que não", afirmou.
A docente lembrou que as estatísticas educacionais têm reflexo também em aspectos sociais, como moradia e acesso à cultura. "O resultado é a fragilidade econômica da população negra, que se concentra em áreas periféricas e sem serviço básico. É ainda uma condição de exclusão". Segundo ela, além de prover o acesso, o Estado precisa oferecer condições de permanência dos jovens nas instituições. "O negro, ao chegar à escola, precisa se ver. A sua história e a sua identidade têm de estar presentes e serem respeitadas".

ZONA DE CONFORTO


De acordo com a coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Paraná (Neab), Lucimar Rosa Dias, como o sistema de cotas é relativamente recente, não impactou de forma tão direta e rápida. "A gente percebe que há um percentual significativo de negros no ensino superior, que a situação está melhorando - e é preciso reconhecer os avanços. Mas as próprias ações afirmativas preveem uma reavaliação ao longo do tempo, uma vez que não são as únicas formas de superação das desigualdades".
Ela defendeu que os currículos contemplem as contribuições da população afro-brasileira e indígena. "(A questão) passa pela informação e pelo modo como o tema é trabalhado. Em julho eu fui a uma reunião de pesquisadores e uma das pesquisas mostrava uma situação em que a professora de língua portuguesa, toda vez que a criança negra tentava falar, não ouvia. A menina era silenciada e ninguém percebia", contou. "A sociedade tem de reconhecer o racismo. Agora, isso significa mexer com as pessoas e tirá-las da zona de conforto, porque significa também lembrar quem é beneficiado".

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