Apucarana - Mais de 11,5 mil quilômetros, em linha reta, separam Apucarana (Centro-Norte) de Kiev, capital da Ucrânia. Porém, tamanha distância geográfica não é suficiente para diminuir a preocupação e a dor de ucranianos e descendentes que vivem no Paraná. "Estamos com o coração partido por causa de tudo o que está acontecendo", resume o padre Eduard Tararuk, de 40 anos, da Igreja Ortodoxa Ucraniana.
Ele se refere à tensão que se instalou em seu país natal desde o início dos protestos que culminaram na deposição, no dia 22 de fevereiro, do presidente Viktor Yanukovich. Em torno de cem manifestantes morreram nos confrontos com as forças de Yanukovich, na Praça da Independência, em Kiev. Agora, há ameaça de guerra com a Rússia pelo território da República Autônoma da Crimeia, sob domínio ucraniano.
A colônia ucraniana de Apucarana começou a se formar na década de 1930, com a colonização da região pela Companhia de Terras Norte do Paraná. Centenas de famílias de imigrantes fixaram raízes no município, mas ainda hoje – já na quarta geração de descendentes - mantêm estreitos laços com a Ucrânia.
Entre membros da colônia ouvidos pela FOLHA, a tristeza e a apreensão são visíveis. O padre ortodoxo Tararuk, há dois anos e meio morando no Brasil, conta que ele e a esposa, Olga Tararuk, - a Igreja Ortodoxa Ucraniana permite que padres se casem - têm parentes na Ucrânia. "Não consigo me acalmar. Sinto vontade de estar lá. Mas meu dever é estar aqui. Por isso, estou unido à comunidade, rezando", diz, na língua ucraniana. O intérprete Ivan Tchopko traduziu a conversa entre a reportagem e o religioso.
Na celebração do último domingo, dia 2, o padre fez um momento especial de oração, citando o nome de cada um dos 84 manifestantes confirmados como mortos até aquele momento. "São heróis de guerra. Filhos que não voltam para casa. Eram pessoas que protestavam contra a corrupção", diz, em tom de lamento. "Yanukovich foi um ladrão dentro da nação ucraniana. Mas seu maior pecado foi matar esses heróis e se unir a Moscou. Espero que ele peça perdão e que alcancemos a paz", finaliza Tararuk.

Medo da guerra

Há um ano e meio, depois de conhecer tios e primos que vivem em Apucarana, o ucraniano Vladislav Bortnik, de 38 anos, decidiu imigrar para o Brasil.
Com os diplomas universitários de engenheiro matemático, programador e economista, Bortnik conta que recebe como auxiliar de laboratório em uma indústria de alimentos de Apucarana quantia semelhante a que recebia como gerente de banco na Ucrânia. "Com a crise financeira que há por lá, não precisam dos meus conhecimentos." O imigrante tenta aprimorar o domínio da língua portuguesa para conseguir remuneração melhor no Brasil.
Desde que as manifestações começaram, Bortnik acorda todos os dias com um resumo das notícias que a mulher dele, Liudmyla, faz da situação na Ucrânia.
Questionado se pretende permanecer no Brasil ou voltar para a Ucrânia em um futuro próximo, Bortnik diz que não tem a resposta. "Tenho esperança de que o meu país melhore com um novo governo. Mas não sei o que pensar neste momento."

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