Uma cidade nada comum
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de agosto de 1999
Por H. Josef Herbert 
Los Alamos, EUA (AE-AP) - É noite de sexta-feira e ouve-se música vinda do estacionamento no centro da cidade. As pessoas chegam com seus filhos e cachorros, suas cadeiras de armar e suas picapes para aproveitar o concerto semanal de verão e dançar no asfalto. Fogos de artifício explodem nas proximidade e crianças gritam de felicidade. Esta é a diversão numa noite quente de verão.
Mas esta não é uma cidade comum.
"As conversas podem tornar-se bastante estranhas", diz Russ Gordon, de 51 anos, dono da Gordons Music Store e organizador, há anos, dos concertos e verão. Nas cadeiras de armar ou encostados nos pára-lamas dos carros, pode-se facilmente encontrar um físico nuclear ou um perito em substâncias condensadas ou em processamento de dados sobre de fluidos dinâmicos.
Esta é Los Alamos, um produto da era nuclear. Algumas quadras da Gordons Music Store está a prefeitura, instalada num local onde, 54 anos atrás, o físico J. Robert Oppenheimer e outros cientistas fizeram a primeira bomba atômica do planeta. A cidade de 18 mil habitantes, localizada a 2,5 mil metros acima do nível do mar num planalto conhecido como Pajaritoto (pássaro pequeno), era fechada aos estranhos até 1957.
O Laboratório Nacional de Los Alamos, que abrange uma área de aproximadamente 110 km2, localiza-se logo após a ponte sobre o desfiladeiro. Mas comunidade e laboratório não poderiam estar mais interligados. Cerca de 12 mil e 400 pessoas trabalham no laboratório nas empresas associadas, incluindo mais de 4 mil e 600 com níveis avançados, um terço deles PhDs. Os altos salários colocam Los Alamos entre as mais ricas comunidades dos EUA, com a média de renda por habitação superior a US$ 64 mil por anos, o triplo da média do país.
Marjorie Bell Chambers, historiadora local, lembra que a segurança no local era tão grande que quando uma criança nascia em Los Alamos, escrevia-se apenas caixa postal 1663 como local de nascimento na certidão. A paranóia sobre o sigilo já passou, mas quase todas as pessoas aqui com alguma relação com o laboratório de armas nucleares, continuam apreciando sua privacidade.
As recentes discussões sobre o taiwanes Wen Ho Lee e as suspeitas sobre espionagem chinesa no laboratório continuam as ser comentadas nos cafés nos finais de semana. "As pessoas que o conhecem não acreditam que ele seja um espião. Ele é um cara que escorregou nas regras na hora errada" diz David Gurd, um físico que trabalha num projeto de acelerador linear no laboratório. Quase todo mundo aqui tem alguma ligação com o laboratório. As pessoas trabalham aqui, aposentaram-se após trabalharem no laboratório, têm parentes trabalhando ou que trabalharam para companhias que dependem do laboratório. "Esta tem sido uma cidade com um único empregador, o que tem sido um problema", diz Mildred Hoak. Ela sabe o que diz. Mildred e seu marido foram obrigados a aposentar-se antes do que gostariam quando mais de 900 empregos foram extintos no início dos anos 90. Apesar disso, ela diz que "é uma cidade maravilhosa para formar uma família".


