Uma casa para uma vida nova
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de maio de 2018
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 

Existem situações transformadoras na vida que não têm explicação. E em alguns casos, as respostas nem importam diante da possibilidade de vivenciá-las. No Jardim Marieta, uma região que abriga famílias em situação de vulnerabilidade social, na zona norte de Londrina, a família de Juliana Rose dos Santos Mota, 36, está vivendo uma delas.
Como um 'passe de mágica', a história dela e dos três filhos se tornou foco de uma rede de solidariedade e em poucas semanas, eles terão uma moradia digna para começarem uma nova vida. Um grupo de 50 estudantes voluntários do curso de Engenharia Civil da Unifil está doando tempo e conhecimento para construir uma casa para Mota.
Nos finais de semana, eles passam o dia erguendo paredes, estudando etapas da construção e até o próximo mês, esperam entregar o imóvel com mobília, alimentos e roupas que já estão sendo doados pela comunidade. Os materiais de construção também foram obtidos através de uma campanha de arrecadação.
"Eu nem acredito no que está acontecendo na minha vida. Eles estão me dando uma casa, mas também estão me trazendo esperança", contou Mota, que está desempregada e sustenta os filhos Gabriel, de 12 anos, João, 6, e Vitor, 1.
Mota sobrevive do Bolsa Família e de trabalhos que consegue esporadicamente como faxineira e serviços gerais. As condições precárias em que a família vive, não cria oportunidades para Mota conseguir um trabalho melhor, mas foi justamente essa situação vulnerável que tirou a família do anonimato.
"O João começou a faltar muito à escola e fomos avisados por agentes do posto de saúde sobre a situação da família. Viemos visitá-los e descobrimos que por falta de alimento, a mãe estava amamentando os três filhos porque eles não tinham o que comer. Assim, a mãe não tinha condições de sair de casa para levar o filho à escola. Ela estava muito fraca, debilitada", contou Márcia Yara dos Santos Massari, professora do João na Escola Municipal Ignez Corso Andreazza.
A diretora e os professores se mobilizaram e compraram alimentos para a família. "Mas as condições em que eles se encontravam, não saía da minha cabeça", disse a professora, que pediu ajuda a um primo que trabalha com construção e da filha, que levou a história de Mota para os professores e demais alunos da Unifil.
"Isso tudo para mim é uma benção de Deus. Com uma casa boa para morar, eu vou poder fazer doces para vender. Vai ser uma nova vida. O cheirinho do bairro vai mudar", diz, estampando a alegria de já estar vivendo dias melhores.
APRENDIZADO - A coordenadora do curso de Engenharia Civil da Unifil, Carolina Alvim, comenta que foram arrecadados cerca de R$ 15 mil em materiais para a construção da casa de Mota. "Estamos com uma rede de solidariedade forte, recebemos também móveis, roupas e alimentos. Vamos entregar a casa montada até junho", afirmou.
A casa terá aproximadamente 60 metros quadrados, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Atualmente, a família vive em um espaço de 20 metros quadrados. Não há piso no chão e as paredes são tábuas improvisadas de madeira. "O pouco que tenho como a cama, a mesinha, o fogão e geladeira foi de doação", aponta Mota.
Alvim explica que o curso de Engenharia Civil se dedica a um projeto social a cada ano. Desde 2009, essas iniciativas possibilitaram a reforma do Ilece (Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais), na região central, e da Escola Municipal Leonor Mestri de Held (zona oeste), além da construção de casas no Jardim Monte Cristo (zona leste).
"O que nos move é essa corrente de solidariedade. E esse trabalho não deixa de ser uma atividade prática, no qual podemos aplicar conceitos trabalhados em sala de aula da melhor forma possível, ou seja, ajudando quem realmente precisa", destacou.
Alvim ressaltou que participar de um projeto social também é fundamental para a formação profissional dos estudantes. "A gente trabalha muito em aula a questão do terceiro setor, pois entendemos a importância desses futuros profissionais desenvolverem a chamada engenharia social. É olhar o próximo", disse.
Todo esse aprendizado é fundamental para Maiara Stresser, aluna do 4º ano. Ela diz que entre a experiência de assentar um tijolo e fazer uma armação, está a gratificação em saber que essa família terá uma melhor condição de vida. "Seria ótimo se isso servisse de exemplo para outras pessoas. Nem tudo se resume a dinheiro. Às vezes, doar um pouco de tempo já faz muita diferença. Para mim, essa experiência é um ganho profissional e pessoal", afirmou.


