Uma argentina é indicada para o Nobel da Paz
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de junho de 1999
Por Marcela Valente 
Buenos Aires (AE-IPS) - Uma argentina que trabalha desde 1985 promovendo a criação de abrigos para meninos e meninas de famílias pobres na Argentina e em outros cinco países da América Latina foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz.
A Federação Argentina de Apoio Familiar, dirigida pela advogada Ana Mon, conseguiu abrir neste país 107 abrigos para 5 mil crianças com idades entre três e 13 anos.
Nestes lares eles recebem alimentos, roupas, serviços de saúde preventiva, recreação e apoio escolar, além de serem ensinados ofícios e ser oferecido apoio a pais com problemas.
Desde os calendários de vacinas até os problemas com drogas e alcoolismo dos pais, passando pela falta de emprego e pela violência doméstica, não há assunto familiar alheio a esta casa onde as crianças recebem muito mais do que amparo.
A organização se sustenta com doações particulares, de empresas, embaixadas e entidades internacionais como a Fundação Scott Badder, da Grã-Bretanha, que sugeriu à Comunidade Britânica das Nações propor Mon como candidata ao Prêmio Nobel da Paz.
A indicação conta também com o apoio do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas e de organizações oficiais e particulares em países como Bélgica, Estados Unidos, Israel e Japão, entre outros.
Mon, presidente e fundadora da Federação, disse que as casas são "autônomas, privadas e ecumênicas" tanto dentro do país como fora dele, e que se reproduzem rapidamente. Há 50 em gestação só na Argentina. Mon trabalha em um pequeno escritório repleto de papéis. Uma das qualidades que permitiram-lhe ganhar a confiança dos benfeitores é sua austeridade e a transparência em seu trabalho.
Os 107 centros que foram criados em todo o país têm tamanhos distintos, segundo as necessidades e os fundos que cada um recebe. Há abrigos com capacidade para receber entre 60 e 250 crianças. Todos demandam US$ 200 mil por ano para seu funcionamento.
Com base no primeiro modelo foram criadas casas similares na América Latina, sendo que uma no Uruguai, três no Peru, quatro no México e uma na Venezuela, e é planejada a instalação de 17 centros na Bolívia, adiantou Mon.
As Federações latino-americanas terão sua primeira reunião entre os dias 28 e 31 no Peru para trocar experiências e criar uma organização regional. Mon explicou que a Federação Argentina convoca grupos de 25 a 30 pessoas "com sensibilidade social" em zonas pobres, e lhes explica como conseguir um lugar, como obter e administrar recursos e doações e como trabalhar com as crianças.
A partir daí é selecionada uma comissão diretiva que trabalhará de forma honorária - como Mon - em cada Casa da Crianças, e convocará o pessoal necessário: cozinheiro, professor, psicólogo, assistente social, médico e dentista.
A Federação funciona na cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, 50 quilômetros ao sul da capital da Argentina. Dali parte ajuda para fundar novos centros e só são enviados fundos às casas do interior em caso de "emergência".
A Federação não recebe fundos do governo, embora cada Casa da Criança administre em muitos casos bolsas e apoio alimentar para as crianças sob seus cuidados. Com 50 anos e cinco filhos, Mon criou o primeiro abrigo em 1985 com um grupo de profissionais amigos. Poucos dias antes havia ficado tocada com a imagem de um grupo de crianças mexendo no lixo perto de sua casa.
"Sabemos que isso é como uma gota no meio do oceano, sabemos também que não vamos salvar o Universo da fome, mas em nosso lugar, com claridade de objetivos, pode-se fazer muitas coisas pelos outros", assegurou a mulher.
Mon reconheceu que a premiação ante o Parlamento norueguês é um apoio às Casas da Criança e faz planos para abrir mais centros em todo o país com o dinheiro do prêmio que ainda não ganhou.
Personalidades argentinas ganharam o Prêmio Nobel da Paz em duas ocasiões. O chanceler Carlos Saavedra Lamas o obteve em 1936 por sua ação pacificadora na guerra entre a Bolívia e o Paraguai, e em 1980 Adolfo Pérez Esquivel ganhou o prêmio por sua luta em favor dos direitos humanos durante a ditadura (1976-1983).
"Necessitamos trabalhar mais na prevenção", disse Mon em sua "trincheira" aproveitando a oportunidade "insólita" - segundo suas palavras - que a levou na semana passada a aparecer na capa do jornal Clarín, o maior em circulação na Argentina.
Para a advogada, o melhor horizonte para sua tarefa é que as crianças tenham um futuro e se desenvolvam numa sociedade na qual se resgate o trabalho das organizações não-governamentais, "pois fazemos uma tarefa mais rápida, austera e eficaz, e com melhores resultados" do que o governo.


