Racak, Iugoslávia (AE-AP) - O playground da escola está alegre, com gritos e risos. Meninos chutam uma desgastada bola de futebol. As meninas sorriem em grupos ou brincam de pega-pega.
Os sons vêm por um caminho lamacento, através do portão de ferro verde do cemitério. E pelas organizadas fileiras de túmulos, todos com placas de madeira iguais pintadas com as cores albanesas (vermelho e preto).
As datas marcadas também são as mesmas: 15 de janeiro de 1999, a ensolarada manhã quando as forças sérvias voltaram sua fúria para os albaneses étnicos de Racak e tiraram 45 vidas.
A carnificina, execuções a queima-roupa, corpos decapitados e mutilados, foi o principal episódio que fez a OTAN mostrar as suas cartas para a Iugoslávia. Racak deu aos EUA e a outros apoiadores da ação militar um poderoso motivo para os 78 dias de bombardeios que começaram no dia 24 de março e terminaram com Kosovo sob proteção internacional. No cemitério, o prefeito de Racak faz uma pausa para ouvir o alegre sussurro do pátio da escola, que fica nas redondezas. Então ele volta-se para os bem arrumados memoriais de flores plásticas e fitas que permanentemente cobrem cada pedaço de terra. E dá atenção especial ao túmulo de seu tio.
"Não sei dizer se esta vila algum dia voltará ao normal novamente", diz Agim Kamberi. "Se isso acontecer, vai levar muito tempo. Talvez para os filhos dessas crianças que estão agora na escola. Pelo menos eles não terão visto com seus próprios olhos as coisas horríveis que aconteceram aqui". A luta de Racak contra estes demônios está se repetindo por toda a parte em Kosovo. Aparentemente a vida voltou ao normal. Lojas e restaurantes estão abertos. Equipes de trabalho consertaram casas queimadas e outros danos causados pelos conflitos étnicos.
Mas o vazio deixado pelos assassinatos não pode ser tão facilmente corrigido. Só em Racak, 63 pessoas perderam um parente. Vinte e cinco mulheres perderam seus maridos. E os contínuos ataques - a insurgência albanesa no sul da Sérvia
confrontos na dividida cidade kosovar de Kosavska Mitrovica - alimentam as preocupações de que a paz real esteja ainda muito distante.
"Eu só espero que os mortos de Racak não tenham deixado este mundo em vão. Eu tento acreditar que algum dia nós vamos viver numa Kosovo livre e em paz", disse Kamberi. "A história da luta de Kosovo vem sendo escrita com o sangue deles". Um poema escrito por uma menina de 13 anos, Behare Bajrami, pergunta: "O que vocês estão fazendo, sérvios? O que vocês estão fazendo em Racak?.
A resposta continua obscura.
Uma semana antes do ataque, uma emboscada na vila próxima de Slivovo matou três policiais sérvios. Tanques e tropas foram enviados para a área.
Mas não havia nada que distinguisse Racak de outras vilas nos pacíficos pés de montanha a cerca de 30 quilômetros ao sudoeste de Pristina, a capital provincial. A própria Racak não havia sido considerada um local particularmente importante pelo Exército de Libertação de Kosovo. A vila estava sob proteção do ELK e frequentemente abrigava rebeldes, dizem os aldeões. Mas isso também acontecia em muitos vilarejos ao redor.
Uma parte de Racak foi queimada pelos sérvios em julho de 1998 e muitas famílias tiveram que fugir. No dia 14 de janeiro de 1999, observadores internacionais informaram que ouviram pesados tiroteios e bombardeios na área de Racak. Os sérvios disseram que havia sido um combate com os milicianos do ELK, mas isso não pôde ser confirmado.
Estima-se que 1.140 pessoas foram deixadas em Racak quando a polícia sérvia e as unidades do Exército foi invadida no amanhecer do dia 15 de janeiro. Alguns dos oficiais eram da vila de Stimlje, nas proximidades, e bem conhecidos em Racak, dizem os habitantes.
Muitas pessoas em Racak acreditam que a vila era apenas um alvo conveniente para a vingança sérvia, já que localiza-se num vale parecido com um anfiteatro e pode ser facilmente cortada por unidades militares.
Observadores da Organização pela Segurança e Cooperação na Europa foram impedidos de chegar ao local até que a operação em Racak estivesse quase terminada. As equipes da OSCE não tinham armas. Sua munição era sua influência no ocidente.
Antes dos bombardeios aéreos da OTAN, a OSCE tentou permanecer imparcial e até mesmo ajudar. Mas em Racak, o chefe da missão da OSCE, Willian Walker, não pôde voltar atrás.
"Eu não tenho palavras para descrever minha reação pessoal...no local do que pode apenas ser descrito como uma atrocidade indescritível", disse Walker logo após ter visto o derramamento de sangue.
Os corpos de 23 homens, todos baleados a queima-roupa, permaneciam empilhados numa vala seca. Na vila, as cabeças das vítimas foram amassadas, cérebros e órgãos removidos. Algumas pessoas foram baleadas nas costas, sugerindo que foram atingidas enquanto tentavam fugir. Todos os mortos, 42 homens e garotos e três mulheres, usavam roupas civis. O mais jovem tinha 13 anos e o mais velho 75.
As mortes de Racak foram citadas como crime de guerra pelo tribunal da ONU em maio de 1999, acusando o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic e quatro membros de seu governo de responsabilidade pelo ato.
O impacto mais imediato foi sentido nas capitais da OTAN. A medida inclinou-se fortemente em favor dos EUA, Grã Bretanha e outros que exigiram ações militares conta a Iugoslávia. Os membros da OTAN que queriam mais negociações, tais como Grécia e Alemanha, repentinamente mostraram-se decididos. O "efeito Racak", como é muitas vezes denominado, estava tomando forma.
"Sem dúvida, Racak havia se tornado um momento decisivo para a OTAN", disse Terry Taylor, um especialista regional do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, cuja matriz fica em Londres. "E provou ser uma ferramenta extremamente poderosa para aqueles que queriam estimular a ação militar".
O número de mortos em Racak poderia ter sido ainda maior
dizem os sobreviventes. Um grupo de cerca de 40 homens foi ordenado a marchar em direção ao local do massacre, mas conseguiram escapar e esconder-se numa ravina funda, conta Ilaz Ymeri, 33 anos, cujo irmão estava entre os mortos.
"Depois disso, eu me juntei ao ELK (Exército de Libertação de Kosovo)", diz ele enquanto caminha sobre pedras marcadas com tinta azul, que indicam onde os corpos foram encontrados. "Eu tive muitas oportunidades de matar civis, mesmo crianças e mulheres. Mas eu não matei. Para mim, isso faz toda a diferença. É por essa razão que eu consigo dormir à noite.
Mas os pesadelos continuam. Muitas das crianças têm medo de dormir sozinhas, conta o diretor da escola, Skender Bajrami. Os alunos geralmente mencionam um professor do ensino básico cujos olhos foram arrancados. "Como você pode ver, ninguém ficou intocado. Mesmo as famílias que não perderam alguém estão associadas à dor", diz Bajrami. "Vizinhos morreram, amigos morreram. Até mesmo as crianças vêem todos os dias que um dos seus professores se foi".
Uma família não têm mais maridos, só esposas. Sherife Syla, 62 anos, diz que presenciou a decapitação de seu marido. Dois de seus filhos também foram mortos, deixando suas esposas e um total de cinco crianças pequenas. "Eu expliquei tudo ao meu filho", diz Zymrie Syla, acariciando os ombros de Dardan, de 3 anos. "Ele entende tudo. Ele sabe quem matou seu pai e o motivo. Você pode imaginar isso? Uma criança de três anos não deveria encarar tais fatos".
Dardan completa, suave: "Meu pai está na colina". E aponta para o cemitério.