O som de rojões, violas e da sanfona nitidamente sertaneja recepcionam os convidados, famílias inteiras que chegam até de ônibus ao sítio dos Monteiro da Fonseca, no bairro Café Forte, em Assaí (36 km a Leste de Londrina). Enquanto isso, na cozinha, as mulheres dão o último retoque nos caldeirões de doces de frutas da época. O clima é de festa junina, mas é mais do que isto. Há mais de 100 anos é assim que a família passa o dia de Pentecostes (data que relembra a revelação do Espírito Santo para os apóstolos) para festejar a Festa do Divino.
A tradição é tão antiga - exatos 131 anos afirma a família - que o início já se perdeu na memória e virou uma espécie de lenda familiar. Segundo a atual geração, a primeira celebração foi realizada por José Bueno da Fonseca, um imigrante alemão casado com uma moça da terra que se instalou em Assaí, ainda longe de ser uma cidade. ''Dizem, mas a gente nem gosta muito de comentar, que o casal não conseguia ter filhos e fizeram uma promessa, quando receberam a graça começaram'', diz Ana da Silva Francisco, 60 anos, descendente do único filho do casal pioneiro.
Mais de um século depois, mais de 150 pessoas, entre vizinhos e muitos parentes fruto dos nove netos do patriarca, se reuniram ontem no sítio para rezar, cantar e agradecer graças recebidas. O agradecimento e também os pedidos vem sobre a forma de uma bandeira com o símbolo do Divino, a pomba branca.
''Cada fita representa a intenção de um membro da família'', explica Celeste Fonseca Gonçalves, 38 anos. Na bandeira da sua família 10 fitas coloridas enfeitavam o pano vermelho e simbolizam pedidos simples. ''É saúde, boas notas na escola, enfim, a gente tem tanta coisa para pedir não?'', comenta.
Dona Sebastiana Fonseca Monteiro, 79 anos, já viu muitos dias de Pentecostes e conta que sempre foi assim. ''Faça chuva ou faça sol o pessoal se reúne para rezar, no ano passado todo esse povo rezou debaixo de chuva'', relembra.
O ponto alto da celebração acontece depois da missa quando é erguido o mastro onde todas as bandeiras - esse ano foram 24 - são pregadas. Nessa hora, um festival de rojões ecoa alto, como que para chamar atenção do santo.
O agricultor Guilherme Monteiro da Fonseca, 38 anos, é o atual anfitrião da festa e conta que os preparativos para receber tanta gente, que a cada ano aumenta, começam uma semana antes. É preciso tempo para fazer os caldeirões de doce de mamão e laranja que são servidos no final da festa. ''Antigamente era a gente que comprava tudo, hoje a coisa ficou tão grande todo mundo ajuda um pouco'', afirma.
Além dos numerosos parentes, a celebração atrai também vizinhos e gente que nem mora assim tão perto. Caso do sanfoneiro Leonardo Marcelo, 54 anos, morador do Conjunto Cafezal, em Londrina. ''A primeira vez que vim aqui tinha sete anos e fiquei tão emocionado que me joguei no rio'', relembra. De lá para cá, ele conta nos dedos as vezes que não participou do rito. ''Gosto demais dessa festa'', reforça.

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