Brasília, 02 (AE) - Um servidor da Novacap, empresa de urbanização do governo do Distrito Federal (DF), morreu hoje e dezenas de manifestantes ficaram feridos - dois tiveram um olho vazado -, em operação da Polícia Militar para dispersar protesto dos servidores na entrada da empresa, em Brasília. No início da noite foi divulgado no Hospital de Base que fragmentos metálicos teriam sido encontrados no corpo da vítima. A PM nega ter usado munição real.
Pelo menos 500 servidores bloqueavam os portões de acesso à empresa, sentados no asfalto, quando a Tropa de Choque avançou, por volta das 13 horas, disparando tiros de borracha e bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. A desocupação foi executada por ordem do secretário de Segurança Pública, Paulo Castelo Branco, presente no local. Desde as 7 horas, o grupo de manifestantes estava reunido em assembléia na frente da empresa reivindicando reajuste salarial e defendendo cláusulas sociais em seus contratos de trabalho.
O servidor morto é servente da Novacap José Ferreira da Silva, de 33 anos, segundo Castelo Branco. A assessoria de imprensa do hospital divulgou que o nome do morto seria Paulo Nunes de Oliveira. O secretário esclareceu que Silva usava um crachá com o nome de Oliveira no momento em que morreu, o que teria provocado o equívoco.
A operação foi criticada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. "É preciso rever os procedimentos em episódios de confronto para evitar desastres como esse", declarou FHC, por meio do porta-voz Georges Lamazire. "Nesse caso claramente saiu-se da normalidade." A Comissão de Direitos Humanos da Câmara divulgou nota pedindo o afastamento dos responsáveis pela "repressão" e também a punição dos que se "excederam, praticando os atos criminosos".
Causa - Castelo Branco disse que a causa da morte só será esclarecida após a autópsia no Instituto Médico Legal (IML). O corpo do servente chegou ao IML por volta das 19 horas, mas a autópsia será feita amanhã (03). O diretor do instituto, Paulo Diniz explicou que "tecnicamente" fica difícil fazer o trabalho à noite, é melhor à luz do dia. Hoje foram feitas radiografias do cadáver. Diniz considera precipitado dizer que a morte tenha sido provocada por fragmentos metálicos. "Perícia não se faz no chutômetro."
Segundo o secretário de segurança pública, dez manifestantes foram presos, entre les o vice-presidente do Sindicato dos Servidores e Empregados do Governo do DF (Sindser)
Cícero Rola. Castelo Branco negou que tenha havido disparos com municão real, apesar de depoimentos contrários de manifestantes.
A ação da polícia, que chegou a perseguir servidores no interior da empresa, será investigada por inquérito policial militar (IPM) e pela Polícia Civil. O Ministério Público deverá ser chamado para acompanhar o caso. Os manifestantes pediram uma audiência com o governador Joaquim Roriz (PMDB), negada segundo sindicalistas.
Guerra - "Foi uma operação de guerra contra pessoas desarmadas", disse o diretor da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no DF, Francisco Paulo Nogueira Filho, integrante da comissão de negociação. Para o secretário, o "rigor" da polícia faz parte do programa Segurança sem Tolerância, criado por Roriz. "Não admitimos nenhuma infração aos princípios legais", justificou o secretário, para quem a ação buscou garantir o direito de ir e vir e proteger o patrimônio.
Cerca de 800 servidores, segundo sindicalistas (500 para a PM), participaram da assembléia-geral. Ao receber o ultimato para desocupar a entrada, onde permitiam apenas a passagem de quem estava a pé, os manifestantes decidiram permanecer no local. Para Castelo Branco, no momento da ação todas as possibilidades de negociação, iniciada às 8 horas, estavam esgotadas. "A manifestação era para o confronto", concluiu o secretário, que esteve acompanhado do secretário de Obras, Tadeu Filipelli.
Segundo o sindicalista Nogueira Filho, os feridos durante a operação foram levados ao hospital por motoristas abordados pelos manifestantes na avenida em frente da empresa. "Os policiais não paravam para ajudar", afirmou Nogueira Filho. O diretor da CUT/DF disse que sindicalistas foram retirados à força do caminhão de som do Sindser e agredidos por policiais durante o tumulto.
No princípio da ação da tropa de choque, policiais militares encontravam-se entre os manifestantes. "Era tanta bomba que até os PMs tiveram de correr", contou Nogueira Filho. O comandante do 4.º Batalhão da PM, coronel Paulo Cesar Thimotheo disse que chegou a cair em meio ao tumulto, em que muitos manifestante foram pisoteados. Segundo Thimotheo, porém, a agressão partiu dos servidores. "Eles atiraram pedras e uma delas quebrou três dedos de um cabo PM", afirmou o coronel.

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