Um paranaense entre os 'képi blanc'
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domingo, 07 de fevereiro de 2010
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Um exército de quase oito mil soldados de 147 nacionalidades diferentes defendendo ao redor do mundo os interesses da França. Isto é a Legião Estrangeira, uma organização militar criada pelo governo francês em 1831 e que se mantém ativa até hoje. E entre os ''képi blanc'', como os legionários são conhecidos por usarem um característico quepe branco, há um mecânico de manutenção paranaense que cresceu na região do Jardim Castelo Branco, em Cambé (Norte), e que hoje tem orgulho das missões que cumpre pelo mundo. Já foi até para o Afeganistão.
Sem praticamente nunca ter saído de sua cidade natal, Marcelo Lima dos Santos, 29 anos, juntou dinheiro e em 2007 partiu para a Europa incentivado pelo irmão mais velho, Maxandro, que já estava na França. Como a grande maioria dos migrantes, foi pensando em trabalhar na construção civil, mas acabou conhecendo um ex-militar brasileiro que o estimulou a se inscrever na Legião Estrangeira. ''Nem sabia o que era'', admite, mas a possibilidade de ter um salário fixo em euro e alguma aventura acabaram influenciando a decisão de se submeter aos rígidos testes para ingressar na organização militar.
Santos acabou aprovado nos testes físicos, psicológicos e médicos e partiu para quatro meses de instrução, onde aprendeu a lidar com armas, teve noções de topografia e se familiarizou com a disciplina militar. Como é tradição entre os legionários, o nome verdadeiro é substituido por outro e Marcelo passou a ser chamado de Leonardo Raul e só retomou sua identidade verdadeira alguns meses depois.
Por já ter um ofício, foi aproveitado no Regimento de Montanha, em Avignon, e no final de 2007 partiu da França para sua primeira missão: quatro meses reformando e construindo escolas em Djibouti, uma minúscula ex-colônia francesa no Nordeste da África. Voltou para a casa e continuou se especializando.
Em 2008, partiu para mais uma missão no exterior, desta vez numa ilha de cerca de 300 metros pertencente ao Taiti (Polinésia Francesa), no meio do Pacífico. O trabalho era recolher os restos de uma antiga base militar francesa. ''Durante cinco meses e duas semanas, isso é importante dizer, ficamos em 47 militares isolados do resto do mundo'', conta o legionário brasileiro.
No meio do nada
Mas o isolamento não seria o maior desafio enfrentando pelo jovem aventureiro nascido em Cambé. Depois de voltar para a França, Santos conta que passou a cumprir expediente administrativo na Legião mas quando menos esperava foi chamado para sua missão de maior risco: atuar na ampliação de uma base militar francesa nas montanhas da fronteira entre Afeganistão e Paquistão, onde os norte-americanos asseguram que Osama Bin Laden se esconde. Resumindo: um lugar no meio do nada, cercado de pedras e areia por todos os lados.
''Fiquei sabendo 15 dias antes que teria que ir e deu um pouco de medo'', admite o cabo da Legião. Ele ficou na região entre junho de 2009 até 10 de janeiro deste ano. Santos diz que saía pouco da base mas certa vez precisou ir até a capital afegã, Cabul, buscar suprimentos. ''Aí sim você corre risco, porque pode ser atacado a qualquer momento''.
A viagem também mexeu com a família do soldado em Cambé. Ele conta que a mãe passou dias bem difíceis por conta de sua missão. A namorada Eline Alcântara, esteticista que há 20 anos vive em território francês com a mãe, confessa que também ficou apreensiva. ''É muito difícil e a gente sempre tem medo porque é um país que está em guerra e pode acontecer um acidente, um ataque, sei lá'', diz, ainda com um carregado sotaque de Maceió (AL), cidade onde nasceu. Nem bem retornou da incursão em solo afegão, Santos ganhou algumas semanas de férias e não teve dúvida: voou rapidinho para Cambé, para o colo da mãe que não via há quase três anos.


