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| Foto: Saulo Ohara
"São povos muito parecidos: alegres e solidários. Certamente, se a situação fosse inversa, teríamos as mesmas homenagens aqui", ressalta Nelson Lopera Barrero


O tradicional canto das torcidas - "Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" - não ecoou pelos nos estádios brasileiros no início deste mês. Após o silêncio de luto pelas 71 vítimas do acidente com o voo da Chapecoense, no dia 29 de novembro, o ufanismo deu lugar ao reconhecimento da grandeza de outra nação. Grande parte das reverências foi para as demonstrações de solidariedade que vieram da Colômbia após o trágico acidente ocorrido próximo a Medellín, onde a equipe brasileira disputaria a final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional.

O triste episódio levantou uma reflexão: quanto somos solidários às tragédias alheias? De acordo com um estudo da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, apesar da fama de ter um povo receptivo e caloroso, o Brasil ficou na 51ª posição entre os países mais empáticos do mundo, em uma lista de 63 países avaliados. A empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro, segundo o estudo, seria mais forte em países como Equador, Arábia Saudita e Peru.

Nelson Maurício Lopera Barrero, de 40 anos, professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é colombiano e há 12 anos vive no Brasil. Ele contraria o estudo e diz não ter dúvidas que os brasileiros agiriam da mesma forma. "São povos muito parecidos: alegres e solidários. Certamente, se a situação fosse inversa, teríamos as mesmas homenagens aqui", ressalta. Barrero conta que ficou com receio de que o mundo enxergasse as manifestações de solidariedade como "exageradas".

Segundo ele, o tamanho da comoção é resultado de um povo que sabe o que é conviver com o sofrimento. "Talvez exista uma coisa que nos diferencie do resto do continente: a dor. São 50 anos de guerrilha, outros tantos de violência promovida pelo narcotráfico", lembra. Lopera, que é natural da cidade de Ibagué, no Departamento de Tolima, distante 330 quilômetros de Medellín, destaca a resiliência dos paisas, habitantes da região de Antioquia, onde está localizada a cidade que abrigou o cartel de Pablo Escobar. "Foi uma época muito difícil, que, felizmente, ficou no passado. Hoje a cidade é uma das mais desenvolvidas da Colômbia", comemora.

Em conversa por telefone com uma cunhada que mora em Medellín, Lopera pôde mensurar o impacto da tragédia. "Eles ficaram arrasados. Os meus sobrinhos, que adoram futebol, sentiram muito a perda daqueles jovens que iam atrás de um sonho", lamenta. O professor acredita que a maior força que o povo de Medellín pode transmitir para os brasileiros, em especial para a Chapecoense, é a capacidade de se reerguer. "É preciso começar de novo e nunca deixar de lutar", encoraja.

Para Lopera, a Colômbia vive o melhor momento de sua história. "Enfim, um acordo de paz está sendo assinado entre o governo e as Farc. É um grande marco que vai marcar um novo tempo, de paz e desenvolvimento na Colômbia", argumenta, referindo-se às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Em mais de 50 anos, o conflito deixou mais de 220 mil mortos no país.

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| Foto: Acervo pessoal
"O colombiano tem coração humilde e sabe perfeitamente o que é perder amigos, familiares e ídolos em episódios trágicos", declara Andrés Cartagena Molina


Andrés Felipe Cartagena Molina, de 29 anos, é outro professor universitário colombiano que vive em Londrina. Docente dos cursos de Odontologia da UEL e da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp), Cartagena nasceu em Chaparral, polo cafeeiro da Colômbia, também no distrito de Tolima. Ele conta que foi muito bem recebido quando chegou a Londrina, há dez meses. "Sou muito grato pelo carinho e acolhimento que todas as pessoas brasileiras têm tido comigo. Em momento algum tive um pedido negado aqui", diz.

Sobre a tragédia, ele ressalta que, como no Brasil, o futebol tem um papel muito importante na sociedade colombiana. "Esse é um dos motivos pelo qual tem sido mostrada uma gigantesca solidariedade pelo povo brasileiro. O colombiano tem coração humilde e sabe perfeitamente o que é perder amigos, familiares e ídolos em episódios trágicos. Por isso o sentimento em massa que brilha nos corações de tantas pessoas que colaboraram nas operações de resgate e daqueles que saíram às ruas e assistiram a atos honrando a memória dos jogadores, jornalistas, tripulação e demais integrantes do voo da LaMia", comenta.

Ambos não negam que ainda existem situações de preconceito isoladas, principalmente em relação ao histórico de tráfico de drogas na Colômbia. "O poderio dos cartéis fechou muitas portas para os colombianos mundo afora. Mas hoje a realidade é outra. Essa nossa demonstração de afeto mostra que há muito mais pessoas boas do que más na Colômbia", enfatiza Lopera. Para Cartagena, o desconhecimento também contribui para o afastamento entre os países. "Muitos brasileiros enxergam a América Latina como a parte do continente subdesenvolvido, mas isto muda quando fazem uma viagem e descobrem os maravilhosos vizinhos que têm", pontua.

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