Um novo papel para o pai contemporâneo
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sábado, 09 de agosto de 2003
Cleide Cavalcante<br> Agência Estado 
São Paulo - Há algumas décadas, os especialistas anunciavam um novo modelo de pai. Era o pai presente, que dividia com a mãe não apenas as funções rotineiras pertinentes à educação do filho, mas que também doava sua parcela de atenção e afeto. Processo resultante da reorganização do núcleo familiar, com a inserção da mulher no mercado formal de trabalho. No entanto, alguma coisa perdeu-se no caminho. Este movimento que então emergia, sinalizado com o lapidar de um estereótipo diferenciado da figura paterna, foi perdendo consistência ao longo dos últimos 20 anos. Claro, seria imperdoável não reconhecer que o pai da atualidade já perdeu muito daquela antiga postura austera, impositiva e unicamente provedora, porém, mesmo assim, a denominação ''pai-de-fim-de-semana'' ainda recai sobre uma significativa parcela.
Pode mesmo parecer um contra-senso afirmar que o pai contemporâneo, cujo perfil está mais flexível, ainda pode ser considerado ''pai-de-fim-de-semana''. Entretanto, com a divisão de poderes na célula da família, o tempo de convívio familiar ficou consideravelmente mais restrito. Acontece que a mulher tem maior facilidade para dosar uma mescla de papéis. ''A mulher organiza mais a vida em função dos filhos, já o homem não tem esta preocupação. Ele até se preocupa com os filhos, mas não com a rotina diária'', destaca a terapeuta Celina Fioravanti, autora de mais de 20 livros sobre comportamento e espiritualidade. Esta é exatamente a experiência que a telefonista Maria Eduarda, de 46 anos, expôs durante entrevista à reportagem.
''Quando você olha ao redor e vê um pai dedicado e gentil com o filho, falando com ele com respeito, participando de brincadeiras, incentivando-o nos esportes, lendo para ele, fazendo as refeições em sua companhia, rindo, colocando-o na cama, estará diante de um pai de verdade!'', analisa a terapeuta de família Saundra Cortese, autora de ''A Alma de Nossos Filhos'' (Editora Cultrix). Infelizmente, completa, poucos pais são assim. Conforme Saundra, após décadas de feminismo, a imagem do pai como uma pessoa severa, cuja única tarefa é disciplinar, está mudando. Mas ainda é comum deparar-se com o velho perfil do pai severo. Para ela, uma saída é contrabalancear antigas idéias sobre a paternidade com modelos de pai mais humanos.
Para Celina Fioravanti, não saber impor limites aos filhos é um dos maiores problemas dos pais dos tempos modernos. ''O jovem quer ter regras, quer saber o que pode e o que não pode. O problema é que a convivência familiar acabou ficando dispersa, cada um tem um interesse específico. As pessoas não estão mais conseguindo se agregar dentro da própria casa'', ressalta Celina.
Ainda de acordo com a terapeuta, o retorno para o lar, depois do trabalho, é um importante momento. ''É quando os pais devem lembrar que são pais, e pensarem em como seus atos afetam os filhos, mesmo antes do nascimento'', frisa. ''Quando o pai de uma criança sai de manhã para cumprir as funções que lhe cabem na vida, ele precisa estar atento para não voltar para casa com sentimentos negativos derivados de desavenças profissionais não resolvidas. Despejar esses sentimentos sobre os entes queridos não é um sinal de respeito ou de amor.''


