São Paulo - Com um sorriso malicioso e olhar arguto, Orson Welles observa Joseph Cotten durante alguns segundos do filme ‘‘O Terceiro Homem’’ (dirigido por Carol Reed, em 1949) e então afirma: ‘‘A Itália passou 30 anos sob os Bórgias. Houve guerras, banhos de sangue e terror, mas houve também Michelângelo, Da Vinci e a Renascença. A Suíça teve seus anos fraternais, um século de democracia e paz. E o que produziu? O relógio cuco’’.
A fala foi criada pelo próprio Welles, que interpreta Harry Lime, um espião canalha, mas também uma das figuras mais cínicas, enigmáticas e sedutoras do cinema. E sua frase resume, de forma correta e brilhante, a genialidade dos homens que viveram durante o Renascimento.
Entretanto, cenas do filme ‘‘Nova York Sitiada’’, exibido recentemente, provocaram a revolta da comunidade árabe nos Estados Unidos, que acusou o longa de promover uma perigosa associação entre fanatismo terrorista e islamismo, além de apresentar uma visão estereotipada de árabes e islâmicos como pessoas violentas, ignorantes e sem nenhum escrúpulo.
Disposta a corrigir distorções, a editora inglesa Modern Library organizou uma coleção que a Objetiva lança nesta semana no Brasil: ‘‘História Essencial, textos concisos sobre assuntos decisivos na evolução humana’’. Os primeiros volumes lançados são ‘‘O Renascimento’’ (224 páginas), do historiador britânico Paul Johnson e ‘‘O Isl㒒 (272 páginas), em que a ex-freira Karen Armstrong, agora estudiosa de religiões, reúne conceitos que buscam derrubar a imagem do islamismo como uma fé de extremismos.
Os textos de Paul Johnson e Karen Armstrong contribuem para um melhor entendimento da História, mas suas falhas não escapam aos olhos atentos. Professor de História da Universidade de Chicago, William McNeill, elogiou os dois trabalhos no ‘‘The New York Times’’, mas observou que Johnson ignorou, por exemplo, o progresso político, militar e religioso durante o Renascimento, o que também contribuiu para o surgimento de grandes nomes. Já Armstrong deixou de lado outros aspectos da história islâmica, como o econômico, militar, científico e artístico.

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