Um novo 13 de Maio
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domingo, 26 de julho de 2015
Celso Felizardo<br>Reportagem Local
Reserva do Iguaçu Há quarenta anos, o lavrador João Maria Soares, de 55 anos, era um moço que impressionava pela força que ostentava em músculos bem definidos. Carregava nas costas sacas e mais sacas de feijão e fazia inveja para os garotos da mesma idade. Era difícil achar quem o desafiasse, mesmo para uma queda de braço. Mas todo vigor era pouco para enfrentar 15 jagunços armados que, a mando das autoridades da época, conseguiram expulsar ele, os pais e mais 70 famílias de descendentes de escravos, herdeiros legítimos daquela terra havia um século.
Sob o estigma do preconceito, eles cresceram e se multiplicaram pelas periferias das grandes cidades ou às margens de rodovias, sempre sonhando um dia em retornar para a Comunidade Invernada Paiol de Telha, antes pertencente a Guarapuava, hoje, à Reserva do Iguaçu, no Centro-Sul do Estado.
Depois de quatro décadas longe da terra dos avôs, enfim as famílias quilombolas que aumentaram de 70 para 390 poderão voltar para a terra prometida. Há pouco mais de um mês, a presidente Dilma Rousseff assinou o primeiro decreto de desapropriação de território quilombola do Paraná. "É um sonho que eu não imaginava que viveria para ver. O tempo e a verdadeira justiça provaram que os pretos tinham razão", comemora João Maria.
Ele e outras 30 famílias quilombolas vivem em uma área de assentamento em Entre Rios, distrito de Guarapuava. "Estou só esperando duas filhas minhas que moram em Santa Catarina voltarem para partimos juntos para o Fundão", planeja, mencionando o nome antigo da Paiol de Telha. "A desapropriação representa mais uma libertação para nós, um novo Treze de Maio", enfatiza a líder quilombola Ana Maria Santos da Cruz, que também mora no assentamento em Guarapuava, referindo-se à data em que se celebra a Abolição da Escravatura.
Segundo o superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Paraná, Nilton Bezerra Guedes, os próximos passos serão a avaliação dos imóveis e o pagamento das benfeitorias para fazer a demarcação do território. "Esta é uma grande vitória para as famílias da comunidade, mais um passo importante no processo de regularização fundiária do território, contribuindo para sanar uma dívida histórica com a população quilombola", comenta.
RECONSTRUÇÃO
Cerca de 50 famílias já retornaram para a Comunidade Paiol de Telha e moram em alguns barracos remanescentes da última das cinco ocupações em dez anos. "Em março fizemos a ocupação, porque essa é a única forma de agilizar as coisas neste País", comenta Osvaldo Soares, de 48 anos. Na ausência de Ana Maria, ele ajuda a coordenar a rotina na comunidade. "Não vejo a hora de dividirem os lotes para a gente poder construir. Tenho dó dessas crianças, principalmente nesses dias de frio", compadece-se.
Para espantar o frio, Leoni de Jesus mantém sempre uma chaleira com água quente para o chimarrão. "Aqui até as crianças gostam de um bom mate. É um costume que adquirimos ao longo dos anos", comenta. Ela não vê a hora de poder construir a casa para poder se abrigar melhor do frio e da chuva. "Com os lotes divididos vamos recuperar nossa dignidade dentro dessa terra que é nossa", planeja. Atualmente, eles ocupam apenas 10 dos 1.460 hectares desapropriados. "Logo queremos ver isso tudo tomado pelas nossas plantações de subsistência", planeja, apontando para os campos tomados pelas culturas intensivas da Cooperativa Agrária de Entre Rios, com quem travaram ferrenhas batalhas judiciais desde os anos 1990.
ACORDO
Por meio de nota, a cooperativa destaca que entende que a demarcação do território quilombola em área de sua propriedade foi produto de um longo processo de negociação, com acordo tanto por parte da cooperativa quanto da comunidade quilombola. "Como não houve imposição, ambas as partes cederam em um reconhecimento mútuo", diz o texto. A Agrária expõe que em momento algum houve expulsão dos quilombolas pela cooperativa. "O que ocorreu foi uma transação comercial de compra e venda de terras, algo que foi reconhecido, posteriormente, pelo próprio Tribunal de Justiça do Estado." A nota enfatiza ainda que até 1996 não houve problemas com os vendedores, que estavam satisfeitos com as negociações. "Se houve, posteriormente, um outro entendimento do Governo Federal, produzido por um decreto presidencial, que modificou, inclusive, o significado da palavra quilombo, tal modificação não deve ser motivo para uma adulteração da história. Reiteramos que a Cooperativa Agrária sempre pautou sua conduta pela legalidade e pela negociação."