Belo Horizonte, 26 (AE) - Uma pessoa morreu e pelo menos outra quatro ficaram feridas em um confronto, hoje pela amnhã, entre centenas de policiais militares e cerca de 400 sem-teto, acampados em parte de uma fazenda de 360 mil metros quadrados, próxima a Betim, região metropolitana de Belo Horizonte. A área, conhecida como Fazenda Bandeirinhas, a cinco quilômetros do centro de Betim, foi invadida no dia 15 de março.
Liderados por entidades como a Liga Operária Camponesa e o movimento nacional de Luta pela Moradia (LPM), os sem-teto - 180 famílias, ao todo - deram nome ao local de "Vila Bandeira Vermelha". A prefeitura municipal, administrada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), dona do terreno, obteve na Justiça um mandado de reintegração de posse, poucos dias após a invasão, e solicitou apoio da PM para retirar os invasores.
Segundo o comandante da operação policial, coronel Maurício Antônio dos Santos, a desocupação, planejada desde o início do mês, seria feita de forma pacífica, por determinação do prefeito Jésus Lima (PT) e do próprio governador Itamar Franco. "Há dias vinhamos entrando em contato com entidades de defesas dos direitos humanos, de parlamentares de partidos de esquerda, sindicalistas e membros da OAB e da igreja, justamente para evitar problemas", disse o coronel.
Cerca de 600 policiais chegaram à área, no início da manhã de hoje, com o mandado judicial. Eles tinham a missão de montar barracas nas quais seria feito um cadastramento das famílias. A estas famílias seriam oferecidos lotes na própria fazenda e em outras regiões de Betim. Porém, quando o trator limpava o terreno na entrada da fazenda para que as barracas fossem armadas, teria sido atingido por um coquetel molotov lançado supostamente pelos sem-teto, o que teria dado início ao confronto. "Essa gente é contra tudo e todos e usa táticas típicas de guerrilha em suas ações", afirmou Santos.
Os policiais cercaram a área e forçaram o recuo dos se-teto para um descampado, onde estão acomodados com suas famílias. Houve troca de tiros e um helicóptero da PM, que participava da operação, foi atingido. Um tenente, identificado apenas como Couto, teria sido ferido na perna, com estilhaços de outro coquetel molotov. "Quando empurramos o pessoal de volta para a mata, encontramos um cidadão baleado na nuca e o levamos para o hospital, com mais três feridos", afirmou o oficial.
A vítima em estado mais grave era Ironildes Anastácio de Souza, de 25 anos. Ele morreu ao dar entrada no Hospital Regional de Betim, onde outro ferido, Elder Gonçalves de Souza, de 24, foi internado em estado grave. Também foram atendidos na unidade Andréa Aparecida dos Santos e Sebastião Antônio Alaor, ambos feridos à bala. Tiros - O coronel Santos garantiu que a tropa usou balas de borracha, e não munição verdadeira, e que os feridos foram alvejadas pelos próprios companheiros. O diretor do Sindicato dos Comerciários de Betim, José Ronaldo Costa, contestou a versão do policial. "Ninguém no acampamento possui armas, são todos homens e mulheres desempregados, com suas crianças em estado de miséria e que querem apenas um terreno para morar", disse.
Para o sindicalista, representante de uma das entidades que apóia a invasão da área, "houve mais uma vez abuso da Polícia Militar". Por volta das 17 horas, a PM continuava no local, mas a situação era tranquila. Itamar - Ao saber do confronto, ainda pela manhã, o governador Itamar Franco, cuja administração tem o apoio do PT e de outros partidos de esquerda, determinou que o prefeito de Betim, o comandante da PM mineira, Mauro Lúcio Gontijo, deputados e secretários de Estado se reunissem para encontrar uma solução pacífica para o caso. "Enquanto não houver diálogo, a tropa tem minha ordem expressa para não invadir o terreno", disse Itamar, que, no dia 21 de abril, em solenidade realizada em Ouro Preto, entregou ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) uma das 88 Medalhas da Inconfidência distribuídas pelo governo mineiro.
O deputado petista Durval Angelo, que participou do encontro, condenou a ação dos sem-teto, que, conforme as primeiras informações, teriam deflagrado o confronto. "Denfendemos a luta pela moradia, mas dentro de um processo pacífico, e ficamos indignados com a violência mesmo que parta de quem tem direito à moradia", afirmou. Apesar disso, o deputado informou que exigirá a autópsia do homem morto no confronto para esclarecer de onde partiu o tiro. "Se tiver sido da polícia, vamos cobrar punição para os responsáveis", afirmou.
O vereador de Betim Licínio Pereira Bahia (PT) que estava no local, disse que a culpa pelo confronto é da administração da cidade, do seu próprio partido. De acordo com Bahia, há cerca de 15 dias o prefeito Jésus Lima, que "nunca recebeu os sem-teto da Vila Bandeira Vermelha para negociar", teria distribuído, entre os parlamentares da Câmara Municipal 400 lotes, inclusive terrenos da região, em troca da aprovação de projetos da prefeitura. "Ele fez uma barganha como a que o presidente Fernando Henrique promoveu com o Congresso para aprovar a reeleição", comparou. Bahia informou que a área invadida, da qual boa parte teria sido doada a indústrias, tem um total de 800 lotes de 200 metros quadrados cada. "Se dessem 180 lotes para as famílias que lá estão, ainda sobrariam 620", afirmou.

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