Um mês de insucesso alimenta acerto de contas em Washington Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 18 (AE) - Depois de um mês de bombardeio quase diário e mais de seis mil ataques pelos aviões e mísseis da Aliança Atlântica contra uma centena de alvos na Iugoslávia, o presidente do país, Slobodan Milosevic, ganhou o respaldo até dos adversários da ditadura que instalou 10 anos atrás em Belgrado e está politicamente mais forte do que nunca.
As forças militares sérvias, que segundo os porta-vozes oficiais da OTAN estariam sendo "degradadas", parecem ter resistido quase que intactas às bombas e não dão sinal de estar prestes a acatar a ordem dos aliados e retirar-se de Kosovo.
Ao contrário, de acordo com estimativas divulgadas no fim da semana pela própria OTAN, o exército de Milosevic aumentou em sete mil soldados o contingente que tinha dentro e nas imediações de Kosovo no início do bombardeio, para um total de aproximadamente 43 mil.
Mais grave, a minoria de origem albanesa que representava cerca de 90% dos 2 milhões de habitantes da província e cuja segurança e tranquilidade era o objetivo central da missão dos aliados, tornou-se vítima da maior catástrofe humanitária na Europa desde a campanha de extermínio dos judeus pelo nazi-fascismo durante a Segunda Guerra Mundial.
Com o desastre armado, os porta-vozes da administração Clinton e da OTAN voltaram insistir neste domingo (18) que a solução é continuar com os bombardeios aéreos até dobrar Milosevic. Mas a perspectiva de fracasso dessa estratégia e a relutância de Washington em admitir a possibilidade de mobilizar forças terrestres, por medo de expor as divisões já latentes na OTAN, já alimentam um acerto de contas na capital norte-americana.
No fim da semana, dois influentes senadores praticamente pediram a cabeça da secretária de Estado Madeleine Albright, identificada por muitos como a principal responsável pelo fiasco. Em entrevista a um jornal de seu estado, Nova Jersey, o senador democrata Robert Torricelli defendeu a troca da equipe encarregada da política externa do governo.
Entrevistado hoje num programa de televisão, Torricelli deu uma passo atrás e disse que não seria apropriado fazer a mudança agora, porque ela seria vista como uma vitória para Milosevic. Mas o senador repetiu as críticas aos erros de cálculos que, em sua opinião, colocaram os EUA numa situação potencialmente parecida com o desastre do Vietnã, nos anos 60 e 70.
Falando no mesmo programa, o senador republicano John McCain, de Arizona, endossou a posição de seu colega democrata e defendeu a troca da assessoria diplomática e de segurança de Clinton na primeira oportunidade.
Colocados contra a parede, altos-funcionários já começaram a cuidar de suas próprias biografias apontando o verdadeiro culpado pela pior crise externa da atual administração: o próprio presidente Bill Clinton.
Protegidos pelo anonimato, vários deles forneceram ampla munição para extensas reportagens que os jornais The New York Times e The Washington Post publicaram hoje para explicar como Clinton colocou os Estados Unidos e a OTAN numa guerra que não sabe como ganhar e da qual não tem como sair.
A conclusão do Times é que a guerra de Kosovo é um sub-produto do "affair" Lewinsky, o escândalo sexual que levou a um processo de impeachment contra o presidente, consumiu sua atenção e energia política durante um ano e o deixou sem tempo e autoridade para responder com firmeza, como prometera fazer em 1993, a qualquer ofensiva de Milosevic contra os kosovares. "Mal me lembro de Kosovo ter sido mencionado nas discussões políticas", disse um assessor de Clinton. "Era tudo sobre impeachment, impeachment, impeachment e não havia mais nada."
Quando, finalmente, o presidente livrou-se do impeachment, em janeiro passado, a confrontação com Milosevic já havia chegado a um ponto sem volta e Clinton estava diante de um conjunto de más opções. É difícil saber até que ponto o desgaste que Clinton sofreu por causa do escândalo sexual e do processo de impeachment pesou nos cálculos de Milosevic.
É certo, porém, que foi no auge da crise do impeachment do presidente americano que o líder sérvio endureceu de posição e iniciou o massacre da população de origem albanesa da província sob o pretexto de combater os guerrilheiros do Exército de Liberação de Kosovo (ELK), que surgiu depois que Belgrado revogou o status de autonomia da província, em 1989.
Em 19 de janeiro, o mesmo dia em que Clinton fez um discurso sobre o estado da união perante o Congresso que o julgava, o comandante supremo dos aliados, o general americano Wesley K. Clark, e o presidente do conselho militar da OTAN, o general alemão Klaus Naumann, foram a Belgrado para entregar a Milosevic fotografias e outras informações comprovando o início do massacre dos kosovares. O líder sérvio rejeitou a acusação e disse que o massacre não passara de uma encenação "dos terroristas"da ELK.
Diante da ameaça feita por Clark, de que a OTAN responderia militarmente se o genocídio continuasse, Milosevic chamou o general de "criminoso de guerra".
Em fevereiro passado, o diretor da CIA, George J. Tenet, deu um depoimento no Congresso no qual chegou a prever que Milosevic desencadearia uma grande ofensiva contra os kosovares na primavera, que resultaria num enorme número de refugiados.
Mas as estimativas do serviço de inteligência também apostavam que o líder sérvio recuaria depois de receber as primeiras bombas, pois não é homem de entrar em guerras para perder. De posse desses cálculos, Albright jogou o peso dos Estados Unidos nas negociações de um acordo já então em curso em Rambouillet, França, entre o governos de Belgrado e os representantes de diferentes facções políticas de Kosovo.
A rejeição do acordo por Milosevic e sua decisão de continuar a concentrar tropas dentro e em torno da província levaram ao bombardeio da OTAN, no mês passado. Albright disse a amigos que as negociações em Rambouillet foram a mais frustrante experiência de sua carreira. As próximas semanas podem reservar-lhe coisa pior, a começar pela tarefa de manter a unidade da OTAN, diante da crescente ambivalência que os europeus manifestam sobre o bombardeio da Iugoslávia.
Um temor em Washington é que as divisões começarão a aparecer tão logo termine a cúpula dos líderes dos 19 países membros da aliança na capital americana no próximo fim de semana. Um sinal de desconforto com o envolvimento da OTAN em sua primeira ação ofensiva foi a decisão dos planejadores do evento de cancelar um sobrevôo que os aviões da aliança fariam durante uma das cerimônias públicas da festa. Com as bombas caindo na Iugoslávia
decidiu-se que o rasante comemorativo seria algo de mal gosto.





