Um passeio no parque, um banho de sol no quintal ou um breve encontro com outros animais na calçada. Momentos de lazer que fazem parte da rotina de milhões de cães brasileiros podem esconder um risco quase imperceptível. É uma doença de distribuição mundial, causada por uma bactéria transmitida por meio da picada de um minúsculo aracnídeo ectoparasita. Se negligenciada, ela pode levar o animal a óbito ou, na melhor das hipóteses, deixá-lo com sequelas para o resto da vida. Por vezes, deixa marcas nos tutores, pois a perda de um animal por uma doença “evitável” acaba cultivando um sentimento de culpa e luto profundo para quem o cão é um companheiro inseparável.

"O número real de casos é provavelmente muito superior aos registros oficiais”, diz Ana Paula Marcos, do Hospital Veterinário Municipal UABA de Londrina
"O número real de casos é provavelmente muito superior aos registros oficiais”, diz Ana Paula Marcos, do Hospital Veterinário Municipal UABA de Londrina | Foto: Hospital Veterinário Municipal UABA de Londrina

A erliquiose canina consolidou-se como a doença infecciosa que mais interna cães em hospitais veterinários no Brasil, gerando uma “epidemia silenciosa” que não deixa rastros nos boletins oficiais do governo. Por não exigir o mesmo registro que casos de raiva ou leishmaniose, o avanço da bactéria transmitida por carrapatos desafia especialistas e expõe a vulnerabilidade de milhões de animais, desde cães de rua até os que vivem na segurança de um lar.

“Atualmente, a erliquiose, não integra a lista nacional de doenças de notificação compulsória ao Ministério da Agricultura e Pecuária, o que contribui para uma possível subnotificação dos casos. Embora seja uma das hemoparasitoses mais comuns em cães, especialmente em regiões quentes, o número real de casos é provavelmente muito superior aos registros oficiais”, diz Ana Paula Marcos, gestora e responsável técnica do Hospital Veterinário Municipal UABA de Londrina.

A enfermidade não é seletiva quanto a raça, idade ou classe social do cachorro. Ela se aproveita de mitos populares para se alastrar, como o de que animais de apartamento “não pegam”. Embora muito rara em gatos, eles podem transportar o carrapato-marrom para o ambiente dos cães. O carrapato Rhipicephalus sanguineus é de difícil localização quando se instala sob o pelo dos animais, devido ao seu tamanho milimétrico. Se estiver infectado com a Erlichia canis pode transmiti-la, caso se mantenha preso ao animal por algumas horas.

O ciclo de contaminação se dá quando o parasita pica um animal infectado e, em seguida, transmite a bactéria ao se alimentar de outro cão. A contaminação também se dá através de transfusão de sangue. Ao atingir a corrente sanguínea, ela ataca as células de defesa, os glóbulos brancos, presentes nos linfonodos, no baço e na medula óssea, e se multiplica, causando destruição celular. E gera danos também a hemácias e plaquetas, comprometendo o sistema imunológico e hematológico do cachorro.

Imagem ilustrativa da imagem Um mal silencioso chamado erliquiose
| Foto: .

A doença pode se manifestar em diferentes fases: aguda, subclínica (assintomática) e crônica. E o diagnóstico precoce é fundamental para um tratamento eficaz.

IDENTIFICAÇÃO

Distinguir a erliquiose de outras enfermidades caninas exige exames de sangue específicos. Testes rápidos e sorologia identificam a presença de anticorpos produzidos pelo organismo, mas o PCR é capaz de detectar diretamente o DNA da bactéria na corrente sanguínea do animal, cravando o diagnóstico.

Existem sinais clínicos que aos olhos de um tutor leigo podem passar despercebidos, mas que para um profissional, o faz considerar o animal um potencial portador da erliquiose. De acordo com Thais Neris da Silva Medeiros, diretora clínica do Hospital Veterinário Sencipet em Londrina, a doença pode resultar em algumas alterações nos cães. “Secreção ou vermelhidão nos olhos, úlcera de córnea, secreção nasal, tosse, espirros. Sinais gastrointestinais, como diminuição ou ausência de apetite, vômito, diarreia. E ortopédicos e neurológicos, como dor articular, paralisia de membros, dificuldade de locomoção, convulsões”, revela. O cansaço prolongado, que é quando o cão fica “amuado”, também pode ser um sinal de alerta.

Medeiros avalia que, dependendo dos testes para cada caso, os valores variam entre R$ 350 a R$ 650, nos quadros mais simples
Medeiros avalia que, dependendo dos testes para cada caso, os valores variam entre R$ 350 a R$ 650, nos quadros mais simples | Foto: Arquivo Pessoal

TRATAMENTO

Diagnosticada precocemente, a erliquiose costuma ter tratamento relativamente tranquilo, em casa, com uso de antibióticos específicos por um período de aproximadamente 28 dias. Medeiros avalia que, dependendo dos testes para cada caso, os valores variam entre R$ 350 a R$ 650, nos quadros mais simples. Esses gastos incluem consulta com veterinário, exame de sangue e o teste específico da doença, basicamente. Não contabilizados os custos com a compra de medicamentos.

“Porém o paciente pode ter a erliquiose e outras doenças associadas, que tornam necessários exames para diferenciá-la das outras”, diz Medeiros. E em casos de maior gravidade, com uma possível investigação da medula óssea, ou com complicações como anemias que precisem de transfusão, alterações renais cuja internação para fluidoterapia é necessária, ou casos de paralisia e convulsão, os gastos acabam sendo significativamente maiores.

Quando o tratamento começa muito tarde, as chances dos cães que não morrem terem de conviver com sequelas são bastante altas. Problemas renais, hepáticos, danos neurológicos, fragilidade imunológica, alterações hematológicas e imunossupressão são quadros que podem acompanhar o animal pelo resto da vida. Além de tudo, o estresse de tomar conta de um amigo doente, que exige medicação rigorosa e cuidados constantes, gera preocupação e afeta a produtividade e o bem-estar dos tutores.

CUIDADOS

Prevenir a infecção exige ações em diversas frentes. “É preciso evitar a picada utilizando medicamentos específicos orais e injetáveis, pour on (aplicação tópica) no dorso, uso de coleiras repelentes. Dessa forma, assim que o carrapato pica, ele não se fixa ou morre”, diz Medeiros.

Além disso, o controle ambiental do parasita – passando por higienização e dedetização do apartamento ou do quintal e dos objetos dos cães – é crucial. Até o momento, não existe vacina eficaz contra a erliquiose.

É necessário um zelo contínuo

A bactéria Erlichia canis muitas vezes pode estar escondida no organismo do animal, espreitando para se proliferar no instante em que ocorre uma queda na imunidade. Em alguns casos ele carrega a vilã durante a vida toda sem apresentar qualquer sinal enquanto está saudável. Por isso a importância de visitas ao veterinário e exames periódicos.

“A gente pega muita Erlichia associada a outras doenças. Por exemplo, paciente fêmea com piometra, uma infecção de útero. Ou um animalzinho faz uma cirurgia, baixa a imunidade por qualquer motivo, e aí é verificada a existência da doença do carrapato”, comenta Taís Medeiros, “Por isso é tão importante testá-la.”

Um dos casos atendidos por ela foi um shih tzu de três anos que chegou apresentando quadro de convulsão. Foram necessários diversos exames e a ajuda de um neurologista para se chegar ao diagnóstico e também descartar danos neurológicos. “A gente tratou sintomaticamente o paciente. Ele foi melhorando aos poucos, até que saiu o resultado do diagnóstico molecular positivo para anaplasma e Erlichia. Duas bactérias ao mesmo tempo, o que estava causando o sinal neurológico nele. Depois de tratarmos, fizemos exames para verificar se havia ainda algum indício da doença.”

Outro caso foi o de uma cachorrinha que tinha a Erlichia já na fase crônica, o que dificulta muito visualizá-la através do exame de sangue comum, fazendo os profissionais partirem para a coleta de medula e a identificação da doença dentro dos ossos.

“Por causa da alteração na medula ela acabou tendo uma hipoplasia de medula óssea, uma diminuição das células das linhagens tanto de plaquetas quanto de leucócitos. E precisou de tratamento por um bom período para conseguir manter essas células no nível adequado. Mas a gente conseguiu reverter o quadro e o nível de leucócitos e de plaquetas normalizou. Esse problema de alteração nas células precursoras da medula é grave.”

A veterinária revela ainda que às vezes são necessárias transfusões recorrentes e, nesses casos, o paciente pode acabar não resistindo até o tratamento surtir efeito.

A professora da rede municipal Edilene Azevedo, tutora do poodle Apolo, viveu uma situação inusitada. Levou o cãozinho para consulta com a intenção de verificar algumas verrugas e descobriu a infecção. Ela diz que a família recebeu com surpresa e certo ceticismo a hipótese de erliquiose trazida pelos veterinários após um exame de sangue.

“Fui consultar a respeito das verrugas, com receio delas serem tumores e tentar sua remoção. Por meio dos exames, a médica verificou que as plaquetas estavam baixas e os leucócitos, alterados, e mencionou a possibilidade da doença do carrapato. Daí confirmamos com o teste rápido. Ela explicou que a bactéria podia estar incubada nele há anos, talvez desde que era filhote, e se manifestado apenas na velhice”, revela.

Tratar da saúde do seu amigo de quatro patas muitas vezes pode resultar em um alto custo financeiro. Boa parte da população não tem condições de bancar despesas hospitalares e médicas quando se depara com uma doença agressiva e potencialmente letal, como a erliquiose. Muitas vezes ficam sem saber a quem recorrer, em busca de ajuda.

Desde o dia 13 de agosto de 2024, Londrina conta com um hospital público veterinário. Ana Paula Marcos, gestora do HV Municipal, revela que o acesso aos cuidados com os cães é gratuito na unidade, que atende grupos específicos da população londrinense.

O Hospital Veterinário Municipal atende exclusivamente pessoas carentes?

Nosso atendimento é voltado prioritariamente à população de baixa renda de Londrina e distritos, além de ONGs e protetores independentes cadastrados junto à CMTU.

Qual o impacto social e financeiro da erliquiose em famílias de baixa renda?

O tratamento da erliquiose frequentemente exige consultas, exames laboratoriais seriados, medicações, acompanhamento clínico e, em casos graves, internação. Para muitas famílias em situação de vulnerabilidade social, esses custos seriam inviáveis devido ao tempo necessário para o tratamento e sem o suporte do serviço público veterinário.

Além do impacto financeiro, existe também um impacto emocional importante, já que, para muitas famílias, o animal é considerado parte integrante do núcleo familiar.

O atendimento e demais procedimentos no HV municipal são gratuitos?

Os atendimentos realizados no Hospital Veterinário Municipal são gratuitos para a população contemplada pelo programa, bem como para ONGs e protetores independentes cadastrados. Os procedimentos necessários durante o atendimento também são realizados sem custo, dentro da estrutura disponível do hospital.

A respeito de medicamentos, existe um fornecimento pela Prefeitura?

As medicações prescritas para continuidade do tratamento domiciliar ficam sob encargo do responsável pelo animal.

E quando há necessidade de internação?

A internação é ofertada gratuitamente nos casos em que há indicação médica veterinária e disponibilidade de vaga. Muitos pacientes com erliquiose grave necessitam de monitoramento intensivo e acompanhamento constante, principalmente devido ao risco de anemia severa, hemorragias e comprometimento sistêmico.

Quais documentos são necessários para comprovar renda e ter acesso ao atendimento na rede municipal?

Os documentos apresentados para o setor de bem-estar animal da CMTU, através do WhatsApp (43) 99994-8677: documento pessoal, comprovante de residência de Londrina ou distritos e folha resumo do CadUnico.

HISTÓRIA

Embora seja um pesadelo nos quintais brasileiros, a erliquiose tem raízes profundas na história militar e científica. Seu primeiro registro oficial foi feito em 1935 pelos pesquisadores franceses Donatien e Lestoquard, na Argélia. Eles nomearam o agente inicialmente como Rickettsia canis, sendo a primeira vez que se percebeu que um organismo “intracelular” (que vive dentro das células) era o culpado por febres severas em cães.

Contudo, a Ehrlichia canis só mostrou seu potencial devastador global no final da década de 60, durante a Guerra do Vietnã. Naquele cenário, o transporte de tropas e cães militares facilitou a dispersão de linhagens agressivas, forçando a ciência a evoluir no diagnóstico. No calor das selvas, militares americanos viram centenas de seus pastores alemães treinados para o combate tombarem vítimas de hemorragias. O que se suspeitava ser uma nova arma biológica era, na verdade, um inimigo microscópico viajando camuflado a bordo de um pequeno sanguessuga. Na época, o mistério foi batizado de “Pancitopenia Canina Tropical” até ser associado à Erlichia.

O nome atual da doença é uma homenagem a Paul Ehrlich (1854–1915), um dos pais da hematologia moderna e ganhador do Nobel de Medicina. Embora Ehrlich tenha falecido duas décadas antes da identificação oficial da doença, seu legado foi imortalizado em 1945, quando o microbiologista russo Sh. D. Moshkovski criou o gênero Ehrlichia para honrar o homem que revolucionou o estudo das células do sangue.

No Brasil, a bactéria foi primeiramente descrita em Belo Horizonte, em cães da raça Pastor Alemão, por Heraldo de Oliveira Costa e sua equipe, em 1973, na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

mockup