Um julgamento que ficará para a história
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quinta-feira, 02 de setembro de 2010
Luciano Augusto <BR>Reportagem Local 
Londrina - Já era alta madrugada quando a juíza Adriama Katsurayama Fernandes e Silva declarou o réu Édison dos Santos Rodrigues, 31 anos, o ''Zóza'', culpado pela morte do garoto Dener Washington Matias, 11 anos, morto na manhã de 14 de julho de 2006 enquanto brincava em frente à sua casa no Jardim Leste-Oeste (Zona Oeste). A pena de 22 anos e oito meses de reclusão em regime fechado é significativa, mas não explica o que representou o julgamento. Por todas as nuances envolvidas, esta sessão vai ficar marcada na história criminal da cidade como um dos maiores embates já ocorridos entre acusação e defesa no Tribunal do Júri.
O julgamento de Zóza nem era para ter ocorrido. Não fosse pela insistência da promotora da 1 Vara Criminal, Susana Feitosa de Lacerda, a denúncia contra ele teria sido engavetada. Ela recorreu da decisão e conseguiu acusar Zóza como co-responsável pela morte do garoto. Segundo a acusação, ele pilotou a moto que levou o atirador (até hoje não identificado) até a Rua Leste, no Jardim Leste-Oeste, com objetivo de matar um desafeto seu, Lincoln da Silva Nascimento, que também foi atingido, mas sobreviveu.
A promotoria conseguiu ainda reverter outra decisão contrária: derrubou uma liminar que impedia a apresentação da extensa ficha criminal do réu aos jurados. Restava, então, a batalha do Tribunal do Júri, que teve a segurança reforçada por conta da suspeita de tentativa de resgate do preso.
A acusação - feita pelas promotoras Susana e Márcia de Menezes dos Anjos - sustentava que o crime teve como pano de fundo a guerra entre gangues rivais da comunidade comandada por Zóza, o Jardim Nossa Senhora da Paz, e o Jardim Leste-Oeste, onde residia seu desafeto Lincoln. Além disso, ele teria ameaçado testemunhas para forjar a história que o inocentava. A defesa, feita pelo advogado André Salvador, que mais tarde contou com o apoio do colega Antônio Amaral e todo seu staff, esforçou-se em mostrar que o réu era inocente, que possuía um álibi (uma nota fiscal de um hotel de Ibiporã, indicando que ele estaria no local na data do crime) e que as testemunhas que antes o acusavam agora diziam que ele seria inocente e indicavam que outros dois homens teriam cometido o crime.
No plenário, a disputa durou mais de 35 horas e teve lances inusitados. Entre eles, a ida dos jurados até o local do crime. Por causa do risco, o bairro foi ''fechado'' pela Polícia Militar. Em outro momento, a tia do garoto Dener não se emocionou ao falar do sobrinho, mas chorou ao dizer que mentiu ao acusar Zóza. Por fim, o próprio Zóza caiu em lágrimas ao afirmar inocência, dizer que não seria traficante e que não ''manda'' na Zona Oeste. Negou ainda que tenha ligação com qualquer facção criminosa.
O choro, porém, não convenceu os jurados. Ainda de madrugada, Zóza retornou para sua ''solitária'' - que ocupa por ter se recusado a cortar o cabelo - no Centro de Detenção e Ressocialização (CDR). Ele já cumpria pena por associação para o tráfico no local.


