A família estava desesperada. Mais de dez tipos de exames já tinham sido realizados para tentar descobrir o que causava a sede intensa e um enorme cansaço físico em Alan Luz Vavra, 32 anos, mecânico de Arapongas. Desde a adolescência ele sofria com os sintomas mas nada trazia o diagnóstico correto.
As noites eram passadas em claro, pelo número de vezes que ele era obrigado a levantar para tomar água. ''Tinha tanta sede que, se deixasse, em uma única noite eu tomava um galão de 20 litros de água'', comenta.
Em sua infância, campeonatos de ingestão de água eram comuns, e ele sem nenhum esforço conseguia ganhar todos. Em cada etapa Alan ingeria mais de três litros de água. Por mais empenho que os amigos tivessem, eles nunca conseguiam vence-lo e nunca conseguiriam. ''Eles bebiam até a barriga doer e a minha não doía'', relembra.
Mas o que fazia Alan beber tanta água, dar tanta risada e comemorar as vitórias dos campeonatos era algo sério e raro: o diabetes insipidus central, que o acompanhava desde a infância e só teve seu diagnóstico definido após seus 17 anos. Nessa época a doença começou a ficar mais acentuada.''Eu ficava mais nervoso, me irritava com tudo e por muito pouco, não tinha paciência para nada. Xingava, discutia e quanto mais nervoso eu ficava, mais água eu bebia. Antes de saber o que eu tinha, cheguei a pesar a metade do meu peso'', conta.
O emagrecimento descrito por Vavra, de acordo com o endocrinologista José Cervantes Loli, de Apucarana, é um dos sintomas da doença e acontece repentinamente, se o paciente ficar sem tomar água. ''A pessoa que tem esse tipo raro de diabetes só consegue sobreviver porque toma muita água, o que acaba suprindo o excesso de urina que o organismo produz'', explica. O nervosimo e a irritabilidade, ainda de acordo com Cervantes, podem decorrer da concentração exagerada de sal acumulado no organismo, causado pela perda excessiva de urina muito diluída. ''Isto resultaria em desidratação cerebral, que, em casos de desidratação grave, pode levar ao coma e até à morte quando não se faz uma hidratação adequada do organismo'', alerta.
O Diabetes Insipidus Central, conforme explica o médico, geralmente ocorre na infância, e o quadro se instala até os sete anos de idade. Quando não diagnosticado ''poderá causar comprometimento da estatura, que é causado pela deficiência do hormônio arginina vasopressina (AVP), produzido no hipotálamo (sistema nervoso central) e armazenado na hipófise. Geralmente está relacionado a tumores, traumas cranianos e causas mais raras ligadas à doenças autoimunes. Neste último caso, pela proximidade das lesões com o sistema nervoso central, sintomas como visão turva, perda de visão lateral e dor de cabeça são frequentes'', explica.
Vida Normal
O estado nervoso vivido por Alan antes do diagnóstico era tamanho que ele temia perder o emprego. Hoje ele leva uma vida normal, devido ao remédio que inala duas vezes ao dia. ''Sem o remédio minha urina é água, não tem cor, cheiro, nada. Com o remédio ela volta ao normal'', conta ele, que ainda relata que precisa se policiar para tomar água. ''O remédio corta a sede, mas não deixa minha boca seca, tenho que me disciplinar para não deixar de tomar água, porque sede mesmo, não tenho'', enfatiza.

mockup