Um 'drible' na surdez
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domingo, 10 de junho de 2018
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 

Acompanhado por dois filhos, João Macario do Nascimento, 84, foi assistir uma partida de futebol no domingo (10) de manhã. Mas o interesse real do aposentado não era no jogo em si, mas em alguns jogadores que possuem implantes auditivos.
Esse tem sido o objetivo da 2ª Taça Cochlear de Futebol, evento que reúne médicos, fonoaudiólogos, pacientes e interessados no uso de tecnologias de reabilitação auditiva. A partida foi realizada simultaneamente em Londrina, Brasília (DF), Porto Alegre (RS), Ribeirão Preto (SP) e Vitória (ES).
"O Censo de 2010 revelou que cerca de seis milhões de brasileiros possuem alguma dificuldade auditiva e estimamos que 300 mil teriam indicação para implante e aproximadamente 550 seriam candidatos para prótese ancorada ao osso", detalhou Alexandre Lopes, gerente nacional de uma empresa que importa e comercializa produtos médico-hospitalares de alta tecnologia.
Ele esteve no evento que reuniu cerca de 80 pessoas implantadas e candidatas em Londrina, reforçando a importância do diagnóstico precoce e tratamento adequado. De acordo com ele, a triagem auditiva neonatal que deveria ser realizada em todos os nascidos no Brasil atinge, na realidade, apenas 30% dos bebês.
"E quanto mais cedo for realizado o implante, melhor será o resultado por conta da plasticidade cerebral. No Brasil, a média de idade que se implanta é em torno de 3 a 4 anos", afirma o gerente da Politec Saúde. O implante coclear é um dispositivo médico indicado para pessoas com perda auditiva moderada a profunda em ambos os ouvidos e que não têm mais benefícios com o uso de aparelhos.
Essa tecnologia, conhecida popularmente como "ouvido biônico", pode ser implantada em crianças a partir dos seis meses de idade e é coberto pela maioria dos planos de saúde particulares e sistemas públicos de saúde. É justamente neste implante que Nascimento estava interessando. "Uso aparelho auditivo há mais de 10 anos, mas não tem sido bom para mim porque ou o som é amplificado ou ele falha. Já estou fazendo exames, mas quero saber se o implante coclear é bom mesmo", comenta o aposentado, que foi perdendo a audição gradativamente por conta da idade.
Ele conversou bastante com o empresário Wellington Oeda do Carmo. Há 15 anos ele sofreu um derrame e foi perdendo a audição. "Cheguei a usar vários tipos de aparelhos até chegar ao implante. No ouvido esquerdo eu fiz há um ano e na semana passada fiz o direito. Quero contar para essas pessoas o quanto o implante trouxe minha vida de volta, pois por conta da surdez tinha deixado até de trabalhar", revela.

Além do coclear, há pacientes com indicação para o implante auditivo de condução óssea (prótese ancorada ao osso). A partir dos cinco anos de idade, aqueles que têm surdez condutiva, perda auditiva mista ou surdez em apenas um lado podem se beneficiar deste recurso. O dispositivo usa a capacidade natural do corpo de conduzir som através do osso, desviando da parte danificada dos ouvidos externo e médio para enviar o som diretamente ao ouvido interno.
Vale lembrar que as soluções auditivas não devolvem 100% da audição, mas dão condições para as pessoas desenvolverem a fala, a comunicação total. "E isso transforma a vida das pessoas. A surdez ainda é um estigma e limitante socialmente", completa Lopes.
Após a cirurgia de implante, a fonoterapia é imprescindível. O paciente passará por um longo processo de adaptação, segundo a fonoaudióloga Ana Paula Akaishi. "Ele passa a ouvir um som que não escutava, então nosso trabalho é ensiná-lo a ouvir através de estímulos auditivos e visuais", diz.
Reabilitação esta que o operador de máquinas José Freire do Nascimento Neto comemora. Ele perdeu a audição na infância e só foi desenvolver a comunicação oral na adolescência. "Agora que estou fazendo fono, estou conseguindo falar melhor, menos enrolado. É uma conquista", diz.
O otorrinolaringologista em Londrina, Koki Kitahara, que tem mais de 40 anos de profissão ressalta que essas tecnologias mudaram e estão mudando a vida de muita gente e aproveita para fazer um alerta sobre o comportamento atual dos jovens.
"Somos uma geração de muito barulho. Muitas pessoas não sabem o quanto o ruído ambiental é nocivo, mas cada vez mais atendemos pacientes com queixa de zumbido, diminuição de audição e esta perda é irreversível", destaca.
Segundo Lopes, Londrina foi escolhida para sediar este evento porque abriga dois centros de referência em implante coclear. Porém, no município este tratamento ainda não é coberto pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Ele estima que há dez mil pacientes implantados em todo o País, e que somente em 2018, mais de 1.600 cirurgias serão realizadas para implante coclear ou de condução óssea.


