UM DIA DE COMBATE AO FUMO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de agosto de 2000
Lígia Formenti e Lilian Santos Agência Estado De São Paulo 
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, comemorado ontem, foram realizadas em todo o País atividades para tentar conscientizar o fumante a abandonar o vício. Em Londrina e em Curitiba, no Paraná, houve distribuição de brindes em troca do cigarro, além de palestras e consultas gratuitas para ajudar o tabagista (ver textos abaixo). Em São Paulo, foram distribuídos mais de 850 exemplares de um manual destinado a médicos, com dicas de como orientar os pacientes.
Uma pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP) com 428 pessoas internadas no Hospital das Clínicas, das quais 22% eram fumantes, revela que a participação de médicos no combate ao tabagismo está muito longe do ideal. O trabalho, feito a partir de entrevistas, mostrou que metade dos fumantes nunca havia recebido orientação médica para abandonar o vício.
Se o profissional dedicasse dois ou três minutos para
falar sobre o assunto, o paciente poderia pelo menos pensar nessa possibilidade, avalia o professor de pneumologia da Faculdade de Medicina da USP Mário Terra Filho. O trabalho mostrou que nem no HC o esclarecimento é feito de forma adequada. Uma porcentagem expressiva de pacientes não recebeu orientação nem mesmo durante a internação.
O grau de dependência dos pacientes também chamou a
atenção de Terra Filho. Entre os fumantes da pesquisa, 33,3% disseram que haviam acendido pelo menos um cigarro no período de internação - o que é proibido. Para fumar, eles tiveram de quebrar regras ou inventar desculpas para deixar a enfermaria, diz.
O percentual registrado na pesquisa - 22% de fumantes -
é menor do que o encontrado na população em geral: 33%. Terra Filho não estranha a diferença. Alguns fizeram tratamentos anteriores à internação e já haviam parado de fumar.
Mas os pacientes fumantes entrevistados se parecem muito
com os demais: 90% disseram que gostariam de parar de fumar e 75% deles já haviam tentado, mas sem sucesso.
Os resultados do trabalho mostram que precisamos
conscientizar o médico sobre seu papel no combate ao fumo e, além disso, precisamos ampliar a oferta de tratamento para fumantes que desejam abandonar o vício, argumenta o professor da USP.
Terra Filho ressalta que, muitas vezes, um
acompanhamento multidisciplinar é suficiente para o abandono do vício. Em casos mais extremos, recomendamos a reposição de nicotina ou o uso de antidepressivos, afirma. No entanto, ele alerta que quem teve enfarte ou sofre de angina não pode fazer a reposição de nicotina e os antidepressivos são contra-indicados para pessoas com epilepsia.
Além da distribuição do manual, várias outras atividades marcaram o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Uma equipe da Associação de Defesa da Saúde dos Fumantes (Adesf) abordou cerca de 2 mil pessoas em São Paulo, propondo aos fumantes trocar o maço de cigarros por uma camiseta e folhetos explicativos sobre os males causados pelo fumo.
O Projeto Pedágio da Adesf pretende percorrer as principais capitais do País até o fim do ano. Segundo o presidente da entidade, Mário Albanese, o objetivo da campanha é orientar crianças e adultos sobre os perigos do fumo. O tabagismo é uma epidemia, diz Albanese.
A Adesf informa que está na Justiça do Estado uma ação contra as empresas fabricantes de cigarro, a fim de obter indenização para os ex-fumantes. A dependência da nicotina é um drama enfrentado por um quarto da população mundial. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 3 milhões de pessoas morrem por ano vítimas de doenças relacionadas ao tabaco.


