AMSTERDÃ, Países Baixos, (AE-AP) - Marieke van Bekkem senta-se em sua cozinha e desfruta o cheiro das uvas amadurecendo, que chega através de uma porta aberta. Dias como este têm adquirido um significado pungente neste ano, que parece ser destinado a ser seu último.
Depois da remoção cirúrgica dos seus ovários e de nove sessões de intensiva quimioterapia, Van Bekkem decidiu encerrar sua vida pacificamente e sem dor, antes que seu câncer incurável possa destrui-la. Ela prefere passar o tempo que ainda tem em casa com sua família ao invés de permanecer num hospital com médicos e enfermeiros.
Mas como milhares de outros pacientes terminais holandeses fazem todos os anos, esta mãe de dois filhos e 47 anos de idade irá novamente ao seu médico, que não pode ajudá-la a viver, e pedir a ele que a ajude a morrer.
"Eu tenho feito de tudo para manter a qualidade da minha vida", disse ela enquanto sua filha de 20 anos, Noelle, estudava para a prova de estudos sociais e seu velho cão cochilava aos seus pés. "Mas quando chega um momento que eu não tenho nada a dar aos outros ou a mim mesma, a vida perde seu significado". Apesar de a eutanásia vir sendo praticada sob estritas condições na Holanda desde o final dos anos 80, ela continua a ser tecnicamente ilegal. Agora, uma nova legislação que está no Parlamento pode legalizá-la totalmente.
O projeto conta com grande apoio e pode ser aprovado já no próximo ano, agora que o Ministério da Saúde consentiu em derrubar a controversa cláusula que permitiria a crianças a partir de 12 anos, em estado terminal, requisitar um suicídio assistido por um médico mesmo que seus pais não concordassem com a decisão.
Apesar de grupos pró-vida e partidos religiosos serem contra a esta "morte por compaixão" e terem iniciado uma campanha feroz contra a cláusula para eutanásia infantil, não há sinais de que o tradicional apoio a eutanásia entre os holandeses tenha se diminuído.
Pesquisas de opinião realizadas no passado mostraram que mais de 90% acredita que poderia ser uma escolha para pessoas como Van Bekkem, que não tem qualquer esperança de recuperação.
"Quando o corpo de uma pessoa praticamente parou de trabalhar e a vida é apenas preenchida pela espera da morte, esta pessoa não pode mais sustentar um relacionamento e manter o respeito por si mesma", disse o ginecologista de Van Bekkem, Dr. Edith Sijmons, do Hospital Acadêmico de Utrecht.
Saber que a eutanásia é uma opção, diz Van Bekkem, ajudou- a e aos seus filhos a superar a dor e a tristeza sobre o que vem pela frente. "A simples idéia de que isso é possível, fez com que eu ficasse com menos medo de morrer", afirmou.
"Nós fizemos em um ano o que a maioria das pessoas levaria 40 anos para fazer: as discussões que nós tivemos, as perguntas eles fizeram e os problemas com os quais eles têm de lidar. Tem sido um ano intenso e eles envelheceram, mas tem sido também um período muito bonito"."Eu não quero morrer. A morte cruzou o meu caminho... mas eu estou na margem da vida. Eu sei que a minha doença torna minha vida impossível".
Nem todos que buscam a eutanásia recebem aprovação e a legalização não mudaria esta situação. As regras impostas pelo parlamento em 1993 e que foram incorporados na nova legislação, requerem que o candidato esteja em sofrimento irremediável e com dores insuportáveis. Ele deve estar consciente de todas as opções médicas, buscar uma segunda opinião e fazer uma requisição persistente, voluntária e bem-informada pela eutanásia. Os médicos não podem sugerir a eutanásia como uma opção.
Dos quase 35 mil pedidos feitos a cada ano, cerca de 9.700 são atendidos, com a assistência de um médico, geralmente por injeção letal, de acordo com um estudo de 1995 sobre o tema na Holanda, publicado no New England Journal of Medicine. Os médicos relatam apenas a metade desses casos e os que apóiam a legalização dizem que um dos benefícios seria a melhor regulação e documentação. Os críticos, porém, temem que a legalização promova a eutanásia como uma forma regular de tratamento médico e aumente as chances de abuso. Alguns acham que instituições médicas poderiam promover a "morte por compaixão" como meio de cortar custos e aliviar a carga de trabalho dos médicos.
"Esta é a primeira vez que uma parcela específica da população está livre de sofrer processos por morte", disse, num comunicado, um grupo anti-aborto e anti-eutanásia conhecido por Grito pela Vida (Scream for Life).
Van Bekkem concorda prontamente que os médicos devem ser cuidadosamente policiados e as regras para eutanásia reforçadas, mas ela tem preocupações mais urgentes: como poupar-se, e aos seus filhos, de uma longa, agonizante e tensa prova.
"Vai chegar um momento em que eu estarei na cama e mais doente do que estou agora", disse ela. "Quando eu estiver incapaz de me comunicar com os outros, agora eu só estou perdendo peso, eu acho que a vida terá terminado para mim". Apesar de ainda não ter planejado sua morte detalhadamente, ela sabe o que quer: "Eu terei combinado com meu médico e pedirei a ele que venha até a minha casa. Eu suponho que ele me dará uma injeção. Eu estarei cercada pelas pessoas que eu amo. Todos estarão lá. E será um momento muito bonito, apesar de muito difícil".

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