Um capítulo escondido da guerra
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de setembro de 1999
Por Sang-Hun Choe, Charles J.Hanley e Martha Mendoza 
Washington, 29 (AE-AP) - Era uma história que ninguém queria ouvir: No início da Guerra da Coréia, disseram moradores, soldados americanos metralharam centenas de civis indefesos sob uma ponte rodoviária no interior da Coréia do Sul.
Quando as famílias começaram a denunciar o ocorrido, buscando reparações, eles encontraram apenas rejeição e negativas por parte dos militares dos EUA e de seu próprio governo em Seul. Agora, uma dezena de ex-soldados americanos falaram, também, e suportam sua história com memórias assombradas de uma guerra "esquecida".
Veteranos americanos da Guerra da Coréia dizem que no final de julho de 1950, nas primeiras desesperadas semanas do conflito, tropas dos EUA mataram um grande número de refugiados sul-coreanos, muitos deles mulheres e crianças, imprensados sob uma ponte de uma vila chamada No Gun Ri.
Em entrevistas com a Associated Press, ex-soldados falam de 100 ou 200 ou "centenas" de mortos. Os coreanos, cujos pedidos de compensação foram rejeitados no ano passado, afirmam que 300 morreram na ponte e 100 num ataque aéreo anterior.
Soldados americanos, no seu terceiro dia no front, temiam que combatentes norte-coreanos estivessem infiltrados entre camponeses sul-coreanos em fuga, disseram veteranos à AP.
Os ex-soldados relataram sobre outros massacres de refugiados nas primeiras semanas da guerra, quando comandantes americanos ordenaram que suas tropas atirassem em civis, cidadãos de uma nação aliada, como uma defesa contra soldados inimigos disfarçados, segundo documentos anteriormente classificados encontrados pela AP em arquivos militares dos EUA.
Seis veteranos da 1ª Divisão de Cavalaria Motorizada disseram que eles dispararam contra civis em No Gun Ri, e seis outros afirmaram ter testemunhado a matança.
"Nós simplesmente o aniquilamos", disse o ex-metralhador Norman Tinkler, de Glasco, Kansas.
Depois de cinco décadas, ninguém deu um relato completo, detalhado. Mas ex-soldados concordaram com dados como tempo e lugar, e na predominância de mulheres, crianças e velhos entre as vítimas.
Alguns afirmaram que atiraram contra eles do meio dos refugiados sob a ponte. Mas outros disseram não lembrar de fogo hostil. Um afirmou que mais tarde eles encontraram alguns soldados norte-coreanos disfarçados entre os mortos. Mas outros negam isto.
Alguns soldados recusaram-se a atirar contra o que descreveram como "civis apenas tentando se esconder".
Os 30 coreanos que entraram com a ação de reparação - sobreviventes e parentes de vítimas - disseram que o que ocorreu de 26 a 29 de julho de 1950 foram três dias de carnificina sem provocação. "Os soldados americanos brincaram com nossas vidas como garotos brincando com moscas", afirmou Chun Choon-ja, na época uma garota de 12 anos.
O número de mortos divulgado tornaria No Gun Ri um dos dois únicos casos de massacre em larga escala de não-combatentes por tropas terrestres americanas em grandes guerras deste século, destacaram especialistas da justiça militar. O outro foi o massacre de My Lai, no Vietnã, em 1968, no qual mais de 500 vietnamitas podem ter sido mortos.
Desde o início do conflito de 1950 a 1953, atrocidades por parte de norte-coreanos foram largamente denunciadas - a matança de civis e execuções sumárias de prisioneiros. Mas a história de No Gun Ri permaneceu encoberta por meio século.
O Pentágono, informado genericamente sobre as descobertas da AP, anunciou não ter encontrado confirmação das alegações em seus arquivos oficiais.
A pesquisa da AP também não encontrou um relato oficial do Exército dos eventos.
Alguns elementos do episódio de No Gun Ri não são claros: Qual cadeia de oficiais deu as ordens de fogo? Os soldados viram realmente os refugiados atirando contra eles ou tratou-se apenas de suas próprias balas ricocheteando? Quantos soldados se recusaram a atirar? Até onde na hierarquia militar houve conhecimento dos eventos?
As tropas americanas estacionadas em No Gun Ri, 160 km a sudeste de Seul, capital da Coréia do Sul, eram membros da 7ª Cavalaria, um regimento da 1ª Divisão de Cavalaria. Os refugiados que os encontraram havia sido expulsos por soldados americanos de vilas próximas assim que o invasor exército comunista da Coréia do Norte se aproximava, disseram os queixantes coreanos.
Era a quinta semana da Guerra da Coréia. Circulavam notícias entre as tropas americanas que soldados nortistas disfarçados com vestimentas brancas de camponeses poderiam tentar penetrar as linhas americanas via grupos de refugiados.
"Foi assumido que havia inimigos entre essas pessoas", disse o ex-artilheiro Herman W. Patterson, de Greer, Carolina do Sul, sobre a multidão civil.
Quando se aproximaram de No Gun Ri, em carros de boi, com crianças nas costas, os centenas de refugiados receberam ordens de soldados americanos para saírem da estrada e entrarem em trilhas paralelas, disseram os coreanos.
O que ocorreu então sob uma ponte de concreto não pode ser reconstituído em todos seus detalhes. Apesar de alguns ex-soldados terem aberto arrepiantes memórias, outros ofereceram apenas fragmentos, ou suspenderam abruptamente a entrevista. Por três dias, soldados estavam afundados em mais de cem metros de terreno montanhoso, e ninguém - americano ou coreano - viu tudo.
Mas os veteranos corroboraram o núcleo do relato dos coreanos: que tropas americanas mantiveram um grande grupo de refugiados sob a ponte de No Gun Ri e mataram quase todos eles.
"Foi simplesmente um matança generalizada", disse Patterson. (continua)


