Um cacique do sistema Suharto detêm o futuro da Indonésia Do enviado especial Pepe Escobar
Jacarta, 18 (AE) - Na mais pura tradição do "wayang" - o teatro de sombras de bonecos -, golpes de teatro se sucedem em velocidade fulminante na véspera da histórica eleição presidencial indonésia, quarta-feira em Jacarta.
B. J. Habibie, o atual presidente, está com suas horas contadas. De nada adiantou um segundo discurso apaixonado à Assembléia Consultativa do Povo (MPR) - três dias após seu discurso inicial de prestação de contas de 16 meses de governo.
Hoje, o general Wiranto, comandante das Forças Armadas, em essência declarou que não é mais candidato à vice-presidência na chapa de Habibie. Ou seja: as Forças Armadas agora não apóiam diretamente nenhum dos três candidatos - Habibie, Megawati Sukarnoputri e o líder islâmico Gus Dur.
O Golkar - o partido do sistema Suharto - já procura furiosamente um candidato alternativo de última hora.
Amanhã, a MPR deve tomar uma decisão crucial: em voto secreto, deve aceitar ou rejeitar o discurso de prestação de contas de Habibie. Há 50% de possibilidades de rejeição - o que decretará o nocaute dos sonhos presidenciais do protegido de Suharto.
Jacarta vive em alta tensão. Quarenta mil soldados estarão posicionados até depois de amanhã em todos os pontos-chave da cidade. Colarinhos brancos entram em greve a partir de amanhã para forçar Habibie a retirar sua candidatura. Funcionários da Bolsa - que hoje fizeram seu próprio protesto ao meio-dia - prometem suspender o pregão se Habibie for reeleito. Há até mesmo passeatas com temas surrealistas: hoje, dezenas de milhares de militantes de 17 organizações islâmicas marcharam até o QG da Polícia para oferecer "apoio moral" às forças de segurança que protegem a MPR.
É absolutamente impossível prever o que vai se passar nas próximas cruciais 24h - mas uma coisa é certa: o destino da Indonésia está na mãos de Akbar Tanjung, o novo líder da Assembléia. Akbar é ninguém menos que o chairman do Golkar - a máquina política do sistema Suharto. Akbar não tem carisma. Não tem agenda. Mas é o Rei dos bastidores - posição ideal para um bonachão de 54 anos nascido na combativa Sumatra.
O Golkar ficou em segundo lugar nas eleições legislativas de junho graças às sua extraordinária capacidade de organização, lubrificada pelos 32 anos do sultanato Suharto. Akbar é poderoso não apenas porque supervisiona a máquina - mas porque também é um candidato à vice-presidência. E poderá até mesmo ser candidato a presidente - caso surja um impasse entre os três candidatos declarados, Habibie, Megawati e Gus Dur. O vice-chairman do Golkar, Marzuki Darusman, resume o que está em jogo: "Akbar faz ou desfaz o presidente".
Desta vez, não há um Suharto para referendar: os 700 membros do colégio eleitoral - incluindo 38 militares - estão frente ao desconhecido. Nenhum candidato ou partido tem uma maioria absoluta. Há semanas, impera o frenesi de bastidores. O PDI-P de Megawati obteve 34% dos votos nas eleições de junho - mas entrou em crise devido à sua relutância ou incapacidade de forjar alianças com outros partidos. Megawati, à javanesa, acreditava que a presidência já era sua, por direito divino. Potenciais aliados vivem reclamando que o PDI-P é como uma corte, onde Megawati é a Rainha-Mãe.
No entanto, há duas semanas Megawati teve um encontro seminal com Akbar, quando lhe ofereceu a vice-presidência - contanto que o Golkar a apóie em massa na MPR para a presidência. De acordo com conselheiros de Megawati, a filha de Sukarno teria pedido apenas 4 ministérios para seu partido, o PDI-P: o resto seria distribuído entre os partidos que a apoiarem.
Desde então, Akbar tem praticado um elaboradíssimo "wayang". Em público, apóia Habibie e o status quo. Por trás das cortinas, fez uma composição com o vice-chairman do Golkar, Marzuki - que detesta Habibie - e o autorizou a cortejar Megawati. Para completar, Akbar passou a sugerir en passant que está disposto a se livrar do candidato oficial do Golkar - o que pode acontecer provavelmente amanhã ou mesmo na quarta-feira, na última hora.
A grande interrogação neste fascinante teatro é o terceiro candidato - o líder islâmico Gus Dur, clinicamente cego aos 59 anos mas com sua vulcânica ambição política praticamente intacta. Gus Dur lidera a maior organização muçulmana (35 milhões de adeptos) da maior nação muçulmana do planeta.
Megawati só se elege no colégio eleitoral com o apoio de dois partidos fundamentais: o PKB de Gus Dur, e o Golkar de Akbar. Há inúmeros fatores de complicação. Depois de mais de três décadas do sultanato Suharto, a política indonésia gira em torno de pessoas - e não de idéias. Persiste uma clivagem quase intransponível entre o establishment islâmico e os chamados seculares-nacionalistas - cujo principal ícone, antes de Megawati, era justamente seu pai: "bung" Karno, o "irmão Sukarno", como ainda é chamado afetuosamente pelas massas.
Foi justamente esta clivagem que permitiu aos militares tomarem conta da política depois de uma breve primavera democrática. Hoje, muçulmanos detém quase metade das 500 cadeiras de Assembléia. E vários líderes muçulmanos desde junho manifestam sua total rejeição a Megawati - por seu secularismo, e porque é uma mulher.
Megawati de maneira nenhuma se elege sem o apoio de Gus Dur - que além de comandar os 35 milhões de sua organização islâmica é uma figura central no PKB. Gus Dur, no entanto, é um veterano da instabilidade. É aliado político de Megawati desde 95. Mas antes da queda de Suharto andou flertando com a Primeira Família. Voltou a Megawati depois da renúncia de Suharto. Desde que foi lançado como candidato à presidência pelo oportunista Amien Rais, a distância voltou a aumentar.
É possível que sua candidatura seja uma tática diversionista para minar o apoio islâmico ao Golkar: na última hora, ou seja, depois de amanhã, Gus Dur conclama seus adeptos a apoiar Megawati, certamente em troca de um pote de ouro na coalizão governamental.
Roger Pajet, professor visitante de economia política na Universidade de Semarang, em Java, ecoa o consenso entre a intelligentzia - e as ameaças do "mar vermelho", os partidários de Megawati: a Indonésia pode estar no limite da desintegração se Habibie for reeleito, e terá as portas fechadas aos cruciais dólares e euros dos EUA e Europa. Pajet propõe como solução Gus Dur como presidente e Megawati como vice - um governo de união nacional.
Megawati preferiria o general Wiranto como vice - pois sabe, como Habibie aprendeu amargamente em Timor, que ninguém governa a Indonésia sem apoio dos militares. Oficiais militares, discretos, têm sondado com diplomatas ocidentais a possibilidade de um Wiranto presidente. Resposta unânime: um veemente "não". Hoje, Wiranto e as Forças Armadas declararam, oficialmente, sua neutralidade. Mas os jogos - ainda - não estão feitos.





