Um bilhete, um descaso e uma ausência
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de setembro de 2018
Patrícia Maria Alves 
Essa noite eu tive um sonho estranho. Entrei em um ambiente com meia luz. Mesas quadradas, bancos e cadeiras confortáveis como aqueles bares que a gente vê em filmes estrangeiros ou séries estadunidenses. Tal como se eu estivesse numa cena em Chinatown do Roman Polanski. Inclusive posso garantir que se não fosse a ausência de chapéu eu seria a própria Evelyn Mulwray. Caminhei pelo espaço entre as mesas, recebi um abraço de um desconhecido. Avistei um letreiro iluminado acima do balcão que se revelava "Bar Consolador". Conforme eu avançava, mais gestos de apoio eu recebia. Era alguém que me sorria, outro alguém me cumprimentava amistosamente. O dono do bar veio me recepcionar, dois tapinhas na costas e disse "Vai ficar tudo bem".Na minha cabeça eu especulava o porquê de eu estar naquele bar. Eu fora encontrar alguém? sozinha apenas para ouvir 'A small victory" de Faith No More que tocava no jukebox? Já no Balcão, do barman ganhei um drink e um bilhete. Peguei aquele pequeno papel de guardanapo dobrado onde se via na transparência as manchas das letras vazadas da mensagem em caneta Bic. Abri.
Acordei.
Patrícia Maria.
***
Vamos ler os textos dos leitores que eu estava com saudades! Nosso e-mail para vocês enviarem seus contos continua o mesmo [email protected]
LUZIA
Em homenagem à Luzia, o fóssil mais antigo encontrado na América - agora perdido definitivamente nas chamas que consumiram o Museu Nacional, no RJ. Aquela que foi batizada ''a primeira brasileira'': prova do nosso sangue miscigenado, da nossa herança africana.
Luzia passou por aqui antes do Brasil ser Brasil. Antes de ser Ilha de Vera Cruz, até. Sua terra não tinha nome.
Luzia não chegou a conhecer os portugueses, não foi catequizada nem escravizada. Não viu seu povo ser morto, sua floresta ser levada embora. Não viu suas irmãs mulheres serem estupradas, não viu sua raça branquear por violência, as doenças se alastrarem. Não trabalhou numa fazenda de café, não morou nem em senzala nem em quilombo, não foi ama de leite. Não tentou fugir - não tinha de onde fugir, nem destino. Não sentiu saudade, não conheceu o samba, nem a bossa-nova. Não chegou a ver o direito do voto, os reis malucos, as rainhas piolhentas, as construções brancas. Não cresceu nem em favela nem em cidade. Não sentiu medo de andar na rua, da sua cor, de ser parada aleatoriamente por um policial. Não se apaixonou no ônibus. Não comeu pastel na feira, não brincou de futebol de botão, não arrancou o tampão do dedão correndo na rua, não andou de bicicleta com as rodinhas de apoio. Não tentou alisar o cabelo. Não assistiu nenhuma geração de malhação. Não comemorou nenhuma copa, não comeu feijoada num domingo em família. Não assistiu ''Lagoa Azul'' na Sessão da Tarde. Não desconfiou dos políticos e dos policiais. Não se sentiu sem voz, nem desamparada. Não dormiu ouvindo o apito do guardinha fazendo ronda no seu bairro. Não recebeu cesta básica. Não ficou com medo da Ditadura. Não votou - não ouviu o barulhinho da urna eletrônica. Não reclamou do SUS nem do ensino público. Não sentiu a breve vontade de ter nascido em outro país... não deu tempo. Se foi antes. Talvez, com sorte.
Não deu tempo.
Ainda assim, foi a primeira brasileira. Talvez tenha escapado de tudo o que vemos como brasileiro - um bicho que rosna com o rabo entre as pernas - porque o medo e a indignação são igualmente gigantescos.
Mas, dias atrás, Luzia morreu pela segunda vez. Dessa vez, morreu de uma forma abrasileiradíssima: foi por descaso. Foi por descuido. Foi por aquilo que faz os pesquisadores e professores sempre se sentirem numa corda bamba. Foram os copos de cristal sobre as mesas de orvalho dos representantes. Foi por pura desatenção, ignorância - aquilo que faz os alunos desistirem da escola. Da universidade. Da licenciatura. Faz parte daquilo que quer o fim das humanidades e a ascensão das máquinas, das tecnologias, do aumento dos saldos.
Poderia ter sido salva. Mas não deu tempo.
AMANDA DAMÁSIO
***

MORREU DE NADA
- Morreu de quê?
- De nada.
- Como assim, nada?
- Morreu de nada. Sem sequelas, traumas físicos...
- Alguma doença grave ou muito rara?
- Não. Perfeitamente saudável.
- Mas...
- Segundo a família, há uns quatro meses vinha alegando não sentir nada por absolutamente ninguém; até cair do banco do ônibus, totalmente inconsciente, ontem pela manhã.
- E o atestado de óbito?
- Não sei ao certo, mas parece que deram como causa uma profunda ausência de algo não identificado.
FERNANDO C. BUCHHORN
Escreva para [email="[email protected]"][email protected][/email] e mande seu conto, crônica, poesia.


