Um basta aos 12 anos: Chega de ser gorda
No caso de Graziela, a preocupação com o corpo começou cedo. A adolescente lembra que ''sempre'' foi uma criança ''gordinha'', que atraía os olhares e o preconceito dos colegas da escola. ''Me chamavam de gorda, balofa, até quem não me conhecia se sentia no direito de me julgar'', conta.
Com seis anos, por conta de descamação nas mãos e nos pés, foi levada ao endocrinologista, que detectou que a menina estava com o colesterol alterado. ''O caminho foi então buscar uma alimentação mais balanceada e fazer caminhadas'', lembra a mãe, Tânia Mara de Biaggi Cantaccei, de 36 anos.
Mas aos 12 anos, Graziela deu um basta (''chega de ser gorda''), que quase lhe custou a vida. ''Nunca cheguei a ser magra, sempre estive um pouco acima do peso. Mas chega uma idade em que o que prevalece é o corpo, você vê as meninas na praia todas com um 'corpão', nas revistas e na TV todas as atrizes magras, e quer ser igual'', conta. O problema é que ela quis perder tudo ''em um minuto''.
No começo ela passou a vomitar tudo o que comia, até diminuir as refeições ao mínimo que podia. ''Não comia mais nada a não ser folha e refrigerante light'', lembra. Em poucos meses emagreceu quase 30 quilos. ''Teve uma época em que achava que até água engordava''.
A mãe lembra que começou a achar estranho a perda de peso tão rápida, e um dia ela pegou a filha induzindo o vômito. ''Só uma vez ou outra tinha ouvido falar de anorexia. E no começo, achei que uma bronca ou um castigo iria resolver'', conta a mãe.
Mas a menina só piorava, continuava a emagrecer e ficar sem comer. Os pais a levavam a restaurantes que ela gostava e ela não comia nada. E se em casa, a vigilância era constante, na escola ou no inglês ela continuava a induzir o vômito. ''Ela vivia de nada. É muito triste você ver um filho seu se matando aos poucos'', lembra Tânia.
Graziela lembra que não sentia mais fome ou prazer em comer, e mesmo magra, se olhava no espelho e se via ''enorme''. ''É um pesadelo, o medo de engordar é tão grande que a fome passa'', conta. Para fingir que comia, ela esperava uma distração da mãe e colocava a comida dentro da bolsa, ou o pão dentro do guarda-roupa.
As consequências da doença não demoraram a aparecer - amenorréia (ausência de menstruação), desequilíbrio hormonal, queda de cabelo, baixa imunidade e problemas nos dentes por causa da indução do vômito.
Quando a mãe pediu demissão do trabalho, e não conseguiu, mas passou a trabalhar apenas um período para acompanhar a filha em todos os momentos, ela percebeu que havia alguma coisa errada. Há um ano Graziela está em tratamento com pediatra, psiquiatra, psicóloga, nutricionista e nutróloga, e conta com o apoio da escola e dos amigos. Na religião católica e no grupo de oração Jesus & Cia também encontrou alento: ''O que me ajudou muito a vencer a doença foi Deus. Hoje estou feliz com meu corpo (62 quilos para 1,77 metro) e mais próxima da minha família e dos meus amigos''.
Agora que recuperou a filha, Tânia só quer alertar outros pais e mães para o problema: ''Os pais têm que estar atentos, tem muita propaganda de remédios para emagrecer na TV, dietas absurdas nas revistas, modelos e atrizes que deveriam ser formadoras de opinião para essas meninas. Ter um corpo bonito não é o mais importante, felicidade não é isso''.(C.P.)





