Londrina - "Aiê, lilé, aiê, lilé, totôi, totô". Este é o refrão da música Aiê que foi cantado pelo Coral Unicanto e que abriu o ato público realizado ontem pela manhã no Calçadão para que a população não se esqueça do assassinato brutal de Vilma Santos de Oliveira, aos 63 anos, ocorrido no dia 3 de agosto do ano passado. Conhecida por Yá Mukumby, Vilma era mãe de santo do candomblé e liderança do movimento negro em Londrina e região.
O crime foi cometido por Diego Ramos Quirino, de 31, vizinho de Yá Mukumby. Na mesma ocorrência, Quirino matou outras três pessoas: a própria mãe, Ariadne Benck dos Anjos, de 48; e as também vizinhas, Allial de Oliveira, de 86, mãe de Yá Mukumby, e Olívia Santos de Oliveira, de 10, neta da mãe de santo.
Ontem, a filha de Vilma, Gislene Helena Santos de Oliveira Rodrigues, de 31, ressaltou que sua mãe foi vítima de um sistema contra o qual ela lutou a vida inteira. Ela culpou os pastores de serem os responsáveis por ordenar seus fiéis a agir contra a intolerância religiosa, por meio da mídia televisiva. "Ela era um arquivo cultural importante que lutou por todos os movimentos nas áreas da saúde, cultura e educação. Muitos que utilizam as cotas raciais hoje não sabem o quanto minha mãe lutou para que elas se concretizassem. São coisas pela qual ela lutou para que ficassem para nós e para seus netos", destacou. Yá Mukumby foi militante do movimento negro por mais de 30 anos e precursora do sistema de cotas nas universidades em Londrina.

EXAME PSICOLÓGICO
Segundo o porta-voz do coletivo Por Amor à Mukumby, José Mendes Palmares, no dia 1º de setembro está agendado o exame psicológico no Instituto Médico-legal (IML) de Londrina que irá avaliar a sanidade mental de Diego Quirino, réu confesso das quatro mortes. "Se ele lembra de todos os detalhes das mortes, ele tem consciência do que fez. No primeiro depoimento ele havia falado que era a 'voz de Deus' que estava ordenando que ele fizesse isso, mas ele mudou esse discurso e acredito que foi por orientação da defesa", analisou Palmares. O porta-voz destacou a participação de Vilma na sociedade londrinense. "Ela lutou pela autonomia das mulheres, pela inclusão dos negros na comunidade, foi fundadora do PT em Londrina. Foi uma grande liderança e dificilmente surgirá uma pessoa com todas essas qualidades, que seja líder, negra, do Candomblé, e com a personalidade dela", ressaltou.
O maestro José Mário Tomal foi quem regeu a apresentação do Coral Unicanto em homenagem a Yá Mukumby. "Na realidade esta apresentação foi preparada pela própria Yá Mukumby. Nós estávamos ensaiando estas músicas para serem executadas aqui no Calçadão, mas ela foi morta uma semana antes da passeata que estava organizando em prol da igualdade racial. Talvez não tenhamos executado tão bem como se ela estivesse à frente, mas foi uma apresentação que ela idealizou", conta.

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