Curitiba – O governo do Paraná se comprometeu a colocar em prática, nos próximos meses, a resolução 03/2014, cujo objetivo é humanizar o atendimento de quem sofre violência sexual. A ideia é estender a pelo menos mais duas regiões do Estado uma recomendação já seguida no Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na capital: de que as pessoas procurem a unidade imediatamente após o estupro ou o abuso, sem a necessidade de passar pela delegacia e pelo Instituto Médico Legal (IML). Hoje, na maioria dos 399 municípios paranaenses as vítimas precisam repetir a mesma história em três instituições diferentes, o que acaba por desencorajá-las a seguir adiante com as denúncias.
A iniciativa faz parte de uma série de compromissos assumidos em agosto do ano passado, quando os então secretários Leon Grupenmacher (Segurança), Michele Caputo Neto (Saúde) e Riad Braga Fahrat (Polícia Civil) assinaram um termo de cooperação. A implementação, contudo, depende da capacitação das equipes dos 18 hospitais escolhidos como referência. A primeira delas, em Curitiba, ficou marcada para 15 e 16 de setembro; a segunda, em Londrina, será de 20 a 21 de outubro; enquanto a terceira, em Cascavel, ocorre de 24 a 25 de novembro. "Somos o primeiro Estado do País a organizar e estruturar a coleta de vestígio no próprio hospital", afirmou a chefe do Departamento de Promoção à Saúde da Sesa (Secretaria da Saúde), Maria Cristina Fernandes Ferreira. O procedimento é necessário para ajudar na identificação do agressor, por meio do DNA.
As pastas também criarão um fluxo interno, com a relação de todos os exames laboratoriais necessários, de forma a subsidiar os profissionais envolvidos no cuidado com as vítimas. O acolhimento, a consulta médica, a coleta do material e a administração emergencial de medicamentos – incluindo aqueles destinados à anticoncepção e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) – acontecerão no mesmo lugar.

SILÊNCIO
Segundo o ginecologista e obstetra Rosires Pereira de Andrade, do HC, a cada 24 ou 48 horas uma mulher violentada chega ao serviço do hospital, o que corresponde a uma média de 300 por ano. O número de casos, no entanto, pode ser maior, pois uma das consequências desse tipo de crime é o silêncio, fruto do medo, da vergonha e da sensação de culpa.
Para a doutora em Psicologia Maria Cristina Antunes, que é professora do Mestrado da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), a iniciativa é ótima, porém, precisa ser multidisciplinar e a médio e longo prazo. "É fundamental montar serviços de atendimento especializado, mas que não sejam só ambulatoriais, com médicos, e sim com psicólogos, psiquiatras e (profissionais) de serviço social". Na avaliação dela, essa é uma área muito deficitária no Estado. "Existem pouquíssimos serviços; não há, por exemplo, centros integrados para atender mulheres e crianças. A gente tem situações de estupro, mas também de abuso sexual, que não deixa marcas físicas. A equipe precisa estar preparada"

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