Um a cada quatro alunos vai deixar o ensino médio até o fim do ano
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

A cada ano, quase 3 milhões de jovens abandonam a escola no Brasil. Ao final deste ano letivo, portanto, um em cada quatro estudantes entre 15 e 17 anos de idade vai abandonar os estudos, não vai se matricular para o ano seguinte ou será reprovado. É o que apontou o estudo Políticas Públicas para Redução do Abandono e Evasão Escolar de Jovens, elaborado pelo Insper (Ensino Superior em Negócios, Direito e Engenharia) e divulgado nesta terça-feira (17).
De acordo com o estudo, há atualmente no Brasil cerca de 10,3 milhões de jovens entre 15 e 17 anos que, segundo a Constituição, deveriam obrigatoriamente estar frequentando a escola. Desse total, 1,545 milhão de jovens (15%) sequer vão se matricular no início do ano letivo. Dos 8,8 milhões de jovens que efetuam a matrícula, 721 mil (7%) vão abandonar a escola antes do final do ano letivo. Além disso, cerca de 515 mil (5%) serão reprovados por faltas. Como resultado dessa elevada evasão e abandono, apenas 6,077 milhões de jovens entre 15 e 17 anos (59% do total) concluem o ensino médio com no máximo um ano de atraso.
Além dos problemas que isso provocará para o futuro desse jovem, a evasão (ausência de matrícula no início do ano letivo) e o abandono escolar (desistência durante o ano) dos jovens também implica em prejuízo econômico: cerca de R$ 35 bilhões por ano são desperdiçados no País por causa dessa realidade.
O estudo mostra ainda que houve estagnação na matrícula dos jovens entre 15 e 16 anos e que a porcentagem de jovens de 17 anos fora da escola cresceu seis pontos percentuais nos últimos 15 anos, passando de 34% para 39,8%. Isso, segundo o estudo, contradiz uma tendência mundial: dados da Unesco ( Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) apontam que 74% dos países avançam mais rapidamente na inclusão de jovens de 15 a 17 anos que o Brasil.
Os dados revelam que mais da metade das nações tem menor porcentagem de jovens fora da escola em comparação ao Brasil. Se não houver mudanças nas políticas públicas, o País levará dois séculos para atingir a meta, estabelecida no PNE (Plano Nacional de Educação), de universalizar o atendimento escolar para essa faixa etária que, pelo plano, deveria ter sido atingida no ano passado.
Para a coordenadora de projetos da Fundação Brava, parceira do Insper na pesquisa, Marina Gattás, a estimativa de que o País vai levar 200 anos para cumprir a meta do PNE é o "mais chocante" do estudo. "Foi o dado que mais surpreendeu."
Paralelamente à divulgação do estudo, foi lançada uma plataforma que disponibiliza dados sobre a evasão e o abandono e como combatê-los. O estudo Políticas Públicas para Redução do Abandono e Evasão Escolar de Jovens está disponível no site Galeria de Estudos e Avaliação de Políticas Públicas, o Gesta (www.gesta.org.br), que é organizado pela Fundação Brava, Instituto Unibanco e Instituto Ayrton Senna.
Gattás afirma que é nítido o deficit de políticas públicas. "A disponibilização desses dados ajuda a suprir essa lacuna. O diferencial do site é poder quebrar paradigma de que a propagação desses dados é algo complicado. Se forem comunicadas de maneira estratégica conseguimos divulgar de forma ampla e irrestrita e isso possibilita fornecer insumos para pesquisadores e pode fazer a diferença de forma embasada e consciente", projetou.
A intenção é trabalhar com acadêmicos e traduzir estudos densos e complexos em algo mais tangível e mais facilmente compreendido. "Queremos fomentar o uso das evidências para dar diagnóstico dessa política pública, o que tem de consequência e o que há de relevante nessa área", destacou.
"Com base no dimensionamento do problema, no entendimento das suas causas e dos modelos lógicos de intervenções direcionadas à redução do abandono, o estudo visa passar para a próxima fase e definir metas e do quanto o País está disposto a investir para alcançá-las. O objetivo é estabelecer metas ousadas, mas factíveis, para a redução do abandono e da evasão", aponta o estudo.
No site há recomendações para combater problemas, como o acesso limitado e a pobreza, que resultam na evasão. "O site também compilou 240 práticas nacionais e internacionais de combate à evasão escolar, das quais 135 programas são do Brasil. No entanto a gente tem pouca evidência de qual funciona bem, pois não fizemos a avaliação de impacto e por isso não poderíamos dizer se esses programas possuem eficácia comprovada. Alguns têm consenso entre especialistas, mas outros não", expôs.
Entre os programas mapeados e que estão disponíveis no site constam oito implantados no Paraná: Adolescente Aprendiz; Plano Estadual de Enfrentamento à Violência contra Crianças e Adolescentes; Atitude; Escola Cidadã; Atividade Complementar Curricular em Contraturno; Superação; Plano Personalizado de Atendimento (PPA); e o Nossa Escola tem História.
A reportagem conversou com um aluno do Ceebja (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos), de 17 anos, que manifestou arrependimento por ter parado os estudos quando tinha 15. "Eu não tinha interesse em estudar. Morei um tempo em Salvador e em Rondônia e quando comecei a trabalhar e a ganhar dinheiro não vi necessidade de estudar. Eu não tinha responsabilidade e achava que não iria afetar o meu futuro", relembrou. Agora, no entanto, tem consciência de que precisa estudar. "Às vezes eu me arrependo. Perdi tempo. Este ano voltei para que em breve eu possa fazer o vestibular e o Enem. Quero cursas contabilidade", afirmou.(Com Folhapress)


