UFPR: psicanalistas enxergam “reconhecimento pelo pânico”
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sábado, 13 de abril de 2019
Reportagem local 

Na foto da tela de uma publicação do fórum “dogolachan” disseminada nas redes sociais nos últimos dias, a promessa de um massacre na UFPR (Universidade Federal do Paraná). Como alvo principal, os portadores de HIV, mulheres e negros. “Também adianto que será na UFPR, assim dá tempo de vocês prepararem a pipoca e acompanharem tudo de camarote, hue”, diz a publicação.
O “hue”, ou seja, a risada, é o motivo para as ações desse grupo, tanto as ameaças quanto as que passam de ameaças. Os atentados são, para os frequentadores do chan, um meio legítimo de chamar a atenção. Ainda não se sabe se o alarde era o único fim da publicação, entretanto, o objetivo dos “dogoleiros” foi alcançado: a polícia reforçou o patrulhamento na faculdade.
O criador do dogolachan está preso desde maio de 2018, condenado a 41 anos de sentença pela Justiça Federal de Curitiba. Atualmente, o administrador do fórum – que era frequentado pelos atiradores de Suzano (SP) - é conhecido como “DPR”.
Não é a primeira vez que as universidades são colocadas na mira das ameaças. Em dezembro de 2017, a Polícia Civil de São Paulo investigou um e-mail para a USP (Universidade de São Paulo) com uma ameaça de atentado enviado à FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). Na assinatura do e-mail, o nome de um aluno, que foi ouvido pela polícia. Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, o rapaz teria tido o nome usado indevidamente por hackers para prejudicá-lo, já que ele trabalhava em ações de combate à pedofilia nas redes.
Já em março deste ano, uma carta ameaçadora foi deixada no banheiro da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa). Na mesma semana, outra intimidação para a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
Por mais complexo que seja analisar a individualidade desses atos, a psicanálise consegue traçar um padrão entre os autores das agressões. O psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker, lembra que a cultura do ódio é emergente no País. Mas, sobretudo no interior da Deep Web, opera um distinto código de funcionamento. “São pessoas que se entendem como transgressoras da lei ou que se enxergam como párias sociais. Nerds, incels (que não conseguem encontrar parceiros amorosos), e que têm uma linguagem que alterna o auto-rebaixamento e a produção de efeitos de amedrontamento”, pontua.
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Logo, faz parte do cenário teatral, segundo Dunker, o jogo de quem fala mais coisas desagradáveis e violentas nesse meio. Isso porque essas pessoas, por não se reconhecerem nas regras tradicionais, são pautadas pelo pânico produzido. É uma cultura de quem produz ameaças com efeitos mais reais.
Há uma importante questão narcísica envolvida nessas ações. A psicanalista Fabiane Secches cita que a própria cobertura dos atentados pela imprensa tem parte nisso. Baseada no livro do jornalista norte-americana Dave Cullen, que por anos estudou ataques como o Columbine, Secches pondera sobre essa necessidade de atenção correspondida pelo posto de celebridade que os autores desses fatos recebem.
“Se, entre tantos outros elementos a serem considerados, existe também um desejo narcísico de reconhecimento e notoriedade, é importante que esse desejo não seja atendido pela imprensa e pelas redes sociais. Assim podemos desmontar um dos fatores que costumam ser importantes em casos como esses: muitos desses garotos testemunharam o tratamento dado aos atiradores de Columbine e por isso também passam a imitá-los, na esperança de serem alçados ao mesmo posto”.
Para psicanalista, é importante que se fale das vítimas. Contudo, a não atribuição de fama para esses personagens é uma medida simples que poderia ser adotada pela imprensa. “A cobertura de Suzano e de Realengo repetiu erros de Columbine”, lembra, sobre a glamurização do ato. Secches justifica que “no caso de Columbine, a mídia validou a narrativa de que os atiradores eram vítimas de bullying, forçando respostas e hipóteses precipitadamente, e, contribuindo assim, para a construção de um mito”.
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