UFPR discute reserva de vagas para negros em 2004
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quarta-feira, 18 de junho de 2003
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A Universidade Federal do Paraná (UFPR) pode implantar um sistema de cotas garantindo vagas para negros a partir do próximo vestibular. O Conselho Universitário reuniu-se, ontem, pela primeira vez para discutir o assunto. Não há data marcada para o próximo encontro do Conselho, mas a intenção do reitor Carlos Augusto Moreira é agilizar as reuniões de modo a aprovar o sistema até julho, em tempo hábil para a abertura das incrições ao concurso, que normalmente ocorrem em setembro.
Na reunião de ontem, o professor José Jorge de Carvalho, da Comissão Institucional de Democratização da Universidade de Brasília (UNB), relatou as experiências já adotadas em universidades brasileiras e respondeu perguntas dos conselheiros a respeito das vantagens e problemas da inclusão de cotas. Carvalho é autor do projeto que instituiu o sistema de cotas na UNB, que começa a vigorar a partir do próximo ano.
''É um escândalo como as nossas universidades são brancas. Não há no mundo um país onde o número de negros nas universidades seja tão pequeno como no Brasil. Até na África do Sul (onde o vigora o regime de apartheid) a integração é maior'', disse. Levantamentos feitos nas universidades brasileiras mostraram que, em média, apenas 1% ou menos dos professores universitários é negro e a participação de alunos negros e pardos oscila entre 2% a 5% do total de estudantes. No último vestibular da UFPR, de acordo com a procuradora jurídica da instituição, Dora Bertúlio, só 42 estudantes negros e pardos foram admitidos para as quase 4,5 mil vagas.
Carvalho discorda da idéia de que as cotas deveriam ser adotadas visando a população de baixa renda em geral e não apenas os negros. ''O que nós temos que atacar é o racismo. Se não direcionarmos as vagas para os negros, quem sairia beneficiado seriam os brancos pobres, que não sofrem tanta discriminação. O que eu quero dizer é que se você abrir as cotas para os negros, com certeza vai pegar a população pobre, mas se abrir para os mais pobres, não há nenhuma garantia de que beneficiará a população negra.''
A assessora jurídica da UFPR também refutou a alegação de que o sistema de cotas possa ser interpretado como um preconceito. Para ela, a situação é semelhante a dos deficientes físicos. ''Nos dois casos as vagas preferenciais são necessárias como forma de reduzir as desigualdades, e não para aumentar privilégios.''
Questionado sobre o método a ser utilizado para definir se uma pessoa é negra ou parda, Carvalho defende a aceitação da auto-denominação do candidato como verdadeira. ''Na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) houve um caso de aluno que mentiu na ficha para ser beneficiado pela cota, mas não dá para trabalharmos com a exceção'', justificou.
No final da reunião, o reitor reiterou que a democratização do acesso à universidade é um dos projetos de sua administração, e a intenção é iniciar com as cotas para a população negra. ''A universidade tem que ser eficiente, de qualidade e tem o desafio de ser diferente para a sociedade.''


