UEM debate implantação de cotas raciais
Proposta inicial quer reserva de 20% das vagas ofertadas nos cursos de graduação
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de novembro de 2019
Proposta inicial quer reserva de 20% das vagas ofertadas nos cursos de graduação
Viviani Costa - Grupo Folha 
Alunos, professores e comunidade acadêmica em geral debatem a implantação de cotas raciais na UEM (Universidade Estadual de Maringá). A discussão, que se arrasta há anos, voltou à tona com a realização de rodas de conversa, palestras e seminários, além da atuação de lideranças que buscam maior representatividade para negros dentro e fora do campus universitário.

A professora do Departamento de Ciências Sociais e coordenadora do Neiab (Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-brasileiros) da UEM, Marivânia Conceição Araújo, afirma que a Universidade Estadual de Maringá apresenta o menor percentual de políticas afirmativas quando comparada a outras instituições públicas de ensino superior do Paraná.
“Temos outras universidades que não possuem cotas raciais, mas as cotas sociais e as políticas afirmativas de inclusão chegam a perfazer 50% das vagas nas outras universidades. A UEM, infelizmente, tem apenas como ações afirmativas as cotas sociais [voltadas para estudantes de escola pública e com limite de renda familiar] que vão perfazer 20% de todas as vagas de todos os cursos da universidade”, destaca.
O Neiab, criado pelo Departamento de Ciências Sociais há 13 anos, estuda as relações raciais no Brasil e pleiteia desde o início a implantação de cotas para negros na UEM. A proposta já chegou a ser reprovada em duas ocasiões, porém a professora está mais confiante em razão das experiências já consolidadas em instituições em todo o Brasil. Uma delas é a UEL (Universidade Estadual de Londrina) que adota a política de cotas raciais há 15 anos.
“As cotas raciais são constitucionais. O Supremo (Tribunal Federal) já deliberou isso em 2012 por unanimidade. Há o entendimento jurídico que as cotas são necessárias e legais. Nós precisamos pensar, falar, debater e agir de modo a reparar 350 anos de escravidão. É necessário que se faça isso. Se olharmos todos os dados oficiais, em diferentes setores da nossa sociedade, a população negra está em desvantagem. Quando falo todos, não estou exagerando: na saúde, na educação, no mercado de trabalho... A gente vê resquícios muito fortes de uma sociedade escravocrata. As cotas são uma possibilidade de ascensão social e econômica da população negra”, defende.
A proposta inicial construída pelo grupo favorável às cotas quer a reserva de 20% das vagas em todos os cursos de graduação. Uma comissão já analisou o pedido e deve apresentar uma contraproposta. A expectativa é que o debate e a votação sejam realizados ainda no mês de novembro. Mais de 140 professores e alunos participam do CEP (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão) que deve deliberar sobre a medida.
“Eu sou favorável e uma entusiasta das cotas raciais não porque sou uma pessoa negra, mas porque sou uma pessoa negra que estudou sobre isso e tem conhecimento do potencial positivo dessa medida. [...] O racismo no Brasil é estrutural. Uma das razões para que a sociedade brasileira reproduza o racismo é porque vivemos um ‘apartheid’ racial. Se mais pessoas entrarem na universidade possibilitando o diálogo, o convívio e a troca de conhecimento entre diferentes etnias e raças, isso possibilitará a diminuição do racismo. Negros podem ser médicos, professores, engenheiros, jornalistas. Isso significa representatividade. É preciso parar de pensar só nas pessoas que têm um histórico de privilégios e pensar também nas pessoas que têm um histórico de ausências. Se a universidade é pública, ela deve ser pensada para todos”, conclui.
O vice-reitor da UEM, Ricardo Dias Silva, ressalta que incentiva o debate e apoia a ampliação das chamadas políticas afirmativas. “A decisão é uma decisão colegiada, não vem de cima para baixo. Mas a gente fomenta e apoia esse debate dentro da instituição. Particularmente, eu apoio a ampliação das cotas. Acho que a universidade pública tem compromisso com a sociedade”, frisa.
REPRESENTATIVIDADE
Presença expressiva de negros chama a atenção na UEL
A presença mais expressiva de negros entre os alunos da UEL chamou a atenção da estudante Eloá Lamin da Gama. A estudante concluiu a graduação em história na Universidade Estadual de Maringá e agora cursa mestrado em História Social na UEL.

“Vejo uma diferença gritante entre o clima das universidades e a circulação de pessoas negras no campus. Há uma diferença absurda nos espaços de convivência. As cotas raciais já foram reprovadas por duas vezes na UEM. É um atraso político e histórico. A gente se vê muito mais representado ao ver pessoas negras circulando na universidade”, critica.
A integrante do coletivo Yalodê-Badá, formado na UEM e favorável às cotas raciais, já ouviu como argumentos contrários à medida a existência de uma meritocracia entre os estudantes aprovados no vestibular e que "as cotas raciais não eram necessárias na UEM porque em Maringá nem havia tantos negros assim”.
“Essa maior participação dos negros impacta o dia a dia dos cursos, em sala de aula. Na UEL existe um número maior de coletivos negros, movimentos sociais que lutam pela permanência das cotas. Há uma diferença prática e epistemológica. Vejo professores muito mais abertos a debater as questões raciais em sala de aula e isso vem justamente da maior participação dos negros. Professores que utilizam o mesmo programa de disciplina há 20 anos terão que se reconfigurar”, completa Gama.
Das sete universidades estaduais, além da UEM, a Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) e a Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste) também não oferecem cotas raciais. Na Unioeste, a assessoria de imprensa informa que o tema não está em debate. Na Unicentro, a pró-reitora de Ensino, Karina Worn Beckmann, afirma que há apenas uma reflexão sobre as formas de seleção dos alunos que ingressam nos cursos de graduação.
“Na mesma época em que foram discutidas as cotas raciais, foram discutidas as cotas sociais. Optamos, na época, pelas cotas sociais e temos também o processo de avaliação continuada. Neste momento, existe uma comissão na universidade que está repensando o formato do vestibular e tudo mais. Talvez a discussão venha à tona novamente”, avalia.
CONTRÁRIOS
Pessoas contrárias às cotas raciais se manifestaram nas redes sociais por grupos fechados de discussão e por meio de uma petição on-line. Arthur Oliynik, 18, é coordenador do MBL (Movimento Brasil Livre) em Maringá (Noroeste) e organizador da petição. No final da tarde desta terça-feira (5), o documento, segundo ele, já tinha quase mil assinaturas.
Em 2018, o jovem havia promovido a mesma petição. "Todo ano existe esse levantamento do debate por parte da UEM para cotas raciais e é algo que eu e o MBL não compactuamos", afirma. Para ele, não se pode definir se uma pessoa é capaz ou não de ingressar na universidade pela cor da pele. Oliynik entende que cotas raciais são racistas e injustas para com os demais candidatos ao vestibular.
Na contramão, as cotas sociais, pela renda, são bem-vistas pelo movimento. "As cotas sociais são aquelas que de fato ajudam quem é pobre, não tem condições e precisa entrar na universidade. Da mesma forma que existem brancos pobres, existem negros pobres. Não podemos classificar o ingresso apenas pela cor da pele."


