UEL, UEM E UFPR têm projetos sobre Covid-19 selecionados em edital nacional

Estudos do Paraná estão entre as 90 propostas aprovadas para financiamento total de R$ 45,5 milhões

Viviani Costa - Grupo Folha
Viviani Costa - Grupo Folha

Três pesquisas que serão conduzidas em universidades públicas do Paraná (UEL, UEM E UFPR)  foram selecionadas entre 2.219 propostas protocoladas em todo o país para obter financiamento nacional. A seleção foi realizada por meio de uma parceria entre os ministérios da Saúde e de Ciência, Tecnologia e Inovações e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). O edital para o repasse de recursos teve apenas 90 propostas escolhidas que receberão juntas o valor  de R$ 45,5 milhões. Os estudos abrangem métodos de prevenção e controle da Covid-19, diagnóstico, tratamento e vacina, além de outras ações de enfrentamento ao novo coronavírus.


Sueli Fumie Yamada Ogatta, docente da UEL: objetivo do grupo é desenvolver métodos mais baratos
Sueli Fumie Yamada Ogatta, docente da UEL: objetivo do grupo é desenvolver métodos mais baratos | Gustavo Carneiro
 



DIAGNÓSTICOS NA UEL


Conforme o Ministério da Saúde, 50 instituições de ensino e pesquisa foram contempladas. Entre os projetos selecionados está o coordenado pela pesquisadora doutora na área de Biologia Celular e Molecular, Sueli Fumie Yamada Ogatta. A professora do Departamento de Microbiologia da UEL (Universidade Estadual de Londrina) explica que a intenção do grupo é desenvolver métodos de diagnósticos da Covid-19 mais baratos em comparação com os já disponíveis no mercado. O custo médio dos testes comercializados em laboratórios varia entre R$ 130 e R$ 500.




A equipe envolvida nos trabalhos já atua no desenvolvimento de testes moleculares para o diagnóstico de doenças infecciosas. “Quando começaram as primeiras notícias sobre a pandemia, nós pensamos em iniciar no nosso laboratório a padronização de um teste para diferenciar a Covid-19 de outras síndromes respiratórias. Em seguida, surgiu o edital”, conta a pesquisadora.


Ela ressalta que há profissionais de vários departamentos e instituições envolvidos na proposta. Entre os colaboradores estão representantes da UEM (Universidade Estadual de Maringá), do Instituto de Biologia Molecular do Paraná, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz-Paraná), da USP (Universidade de São Paulo), do Instituto Respirar de Londrina, do Hospital Evangélico de Londrina e do HU (Hospital Universitário) de Londrina. Ao todo, 27 pesquisadores atuam diretamente nas pesquisas.


A equipe receberá R$ 931.400 e terá dois anos para desenvolver as pesquisas e apresentar os resultados. “Esperamos, ao final, conseguir desenvolver esses testes e que eles não fiquem somente em formato de artigo científico. Que possamos mesmo transformar isso em um produto que possibilite ao SUS utilizar de forma mais acessível”. Para a docente, "esse edital é importante não só pelo valor financeiro, mas também pelo mérito dos docentes e pesquisadores envolvidos. O reconhecimento pelo CNPq confirma a história de dedicação da nossa comunidade acadêmica para contribuir para a solução de problemas que atingem a população.”


Para desenvolver os novos testes, os pesquisadores vão utilizar três metodologias principais. Uma das vertentes será a identificação do coronavírus por amplificação de RNA (como nos chamados exames “padrão-ouro” RT-PCR), porém com tecnologia mais barata em relação aos testes já existentes. Outra linha é baseada em um diagnóstico imunológico com a utilização de anticorpos IgY, que são produzidos por galinhas poedeiras. Neste caso, a intenção é desenvolver um teste para a detecção do vírus e outro para a detecção de anticorpos.

 

A terceira metodologia está atrelada à impressão molecular de polímeros biomiméticos. “Nesta técnica será detectado o vírus, assim como nos exames RT-PCR. Os pesquisadores identificarão a interação entre o vírus e o polímero molecularmente impresso que funcionaria como um 'anticorpo plástico'. É uma técnica bastante inovadora”, explica Ogatta.


ACOMPANHAMENTO DE PACIENTES

Na UEM (Universidade Estadual de Maringá), a professora doutora do Departamento de Enfermagem, Maria Aparecida Salci, coordena a pesquisa sobre os impactos da Covid-19 em pessoas que desenvolveram a forma grave da doença. A equipe pretende monitorar a situação de pacientes que foram internados nos hospitais do Paraná. Neste primeiro momento, o acompanhamento será feito durante 18 meses consecutivos. Serão avaliadas sequelas e consequências físicas, emocionais e econômicas.


Professores e estudantes da UEM vão avaliar consequências físicas, emocionais e econômicas de pacientes internados no Paraná
Professores e estudantes da UEM vão avaliar consequências físicas, emocionais e econômicas de pacientes internados no Paraná | Divulgação - UEM
 




Oito professores da UEM atuaram na elaboração da proposta que será desenvolvida em parceria com a Duke University, da Carolina do Norte (EUA), e a Sesa (Secretaria de Estado da Saúde). Nove pós-graduandos de mestrado e doutorado, além de alunos da graduação também fazem parte do grupo. “Diante de tantas dificuldades para desenvolver pesquisa no país, receber essa aprovação pelo CNPq é um estímulo muito grande para toda a equipe”, comemora a pesquisadora.


O professor João Ricardo Vissoci, da Duke University, já atua em parceria com a UEM. A intenção é aprimorar a internacionalização dos cursos de doutorado da universidade em Maringá e disseminar os resultados da pesquisa em outros países.

 


A coordenadora do projeto também lidera os trabalhos do Gepecron (Grupo de Estudos e Pesquisas em Condições Crônicas) implantado na UEM. “Fomos desenvolvendo alguns questionamentos e inquietações que nos motivaram a olhar para as sequelas e as consequências que essa doença poderá provocar a médio e longo prazo”, explica. 


A expectativa do grupo é que os resultados possam ser analisados e utilizados pelos gestores no direcionamento de políticas públicas para dar assistência à população afetada pela forma grave da doença. O CNPq vai destinar R$ 332.413 para a execução dos trabalhos.


VACINA NA  UFPR

Na UFPR, um grupo de pesquisadores trabalha para desenvolver uma vacina contra a Covid-19. A intenção é utilizar a nanotecnologia que permite que a proteína do SARS-CoV-2 seja ligada a uma espécie de plástico biodegradável. As nanopartículas imitariam antígenos para ativar o sistema imunológico.


Emanuel Maltempi de Souza, pesquisador da UFPR: primeiros resultados até o fim de 2020
Emanuel Maltempi de Souza, pesquisador da UFPR: primeiros resultados até o fim de 2020 | Marcos Solivan/UFPR
 




Segundo o pesquisador e professor do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFPR, Emanuel Maltempi de Souza, trabalhos com um bioplástico chamado polihidroxibutirato (PHB), produzido por bactérias, são realizados desde o final da década de 1980 na universidade.


“Como as bactérias podem produzir uma grande quantidade desse plástico, ele já foi considerado um produto que substituiria os plásticos derivados de petróleo porque é completamente biodegradável e biocompatível. Isso significa que se ele for injetado em uma pessoa, por exemplo, vai ser degradado em alguns meses, sem provocar uma reação. Esse tipo de plástico já é utilizado em fios de sutura que são absorvidos. Pensamos em colocar as proteínas do coronavírus na superfície de nanoesferas desse bioplástico e injetar no organismo de um animal para ver se ele daria uma resposta imune. Algo semelhante já foi feito inclusive em uma proposta de vacina para hepatite C”,  detalha.


A tecnologia permitiria a produção das doses com baixo custo. “A proteína do vírus pode ser produzida fora do vírus, em uma bactéria muito comum. A proteína é purificada e ligada às nanoesferas de polihidroxibutirato (PHB).”


Os professores Marcelo Müller dos Santos, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular, e Breno Beirão, do Departamento de Patologia, também fazem parte da equipe, que deve receber R$ 237.600 para o financiamento.


O grupo espera ter os primeiros resultados até o final de 2020 para realizar a fase clínica da pesquisa a partir do ano que vem com a testagem em voluntários. O edital de financiamento nacional veio em boa hora para auxiliar os trabalhos. No entanto, o professor lamenta a falta de investimentos em ciência e tecnologia nos últimos anos em todo o país.




“Em muitas universidades como a nossa, os equipamentos ficaram defasados. O nosso sequenciador de DNA de nova geração, por exemplo, foi comprado em 2012. É um equipamento que está funcionando todos os dias, mas daqui a pouco vai começar a dar problema. Se perdermos essa máquina, vai parar uma série de pesquisas. É muito importante essa reação que as universidades mostraram e o reconhecimento da população que as universidades detêm conhecimento e que elas não querem manter esse conhecimento lacrado em um cofre. A gente quer compartilhar de forma de que a gente esteja como comunidade mais aptos a enfrentar esse tipo de desafio."

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