A UEL (Universidade Estadual de Londrina) poderá sofrer um corte de quase 25% no total de bolsas concedidas aos alunos de mestrado e doutorado caso o governo federal concretize os anúncios que vêm fazendo com relação a gestão dos recursos para pesquisa nas universidades públicas do País.

Professores, alunos e dirigentes debatem impactos do corte de bolsas na instituição
Professores, alunos e dirigentes debatem impactos do corte de bolsas na instituição | Foto: Ricardo Chicarelli

Na semana passada, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) havia anunciado um corte de 5.613 bolsas. No entanto, nesta quarta-feira (11), o ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou que o governo vai reativar 3.182 bolsas de pesquisa congeladas neste ano.

Diante do novo cenário, a expectativa que foi apresentada e debatida com muita preocupação entre professores, bolsistas de pós-graduação e a reitoria da UEL na tarde desta quinta-feira (12) aponta para uma redução de 34% nas bolsas de mestrado e 14% nas de doutorado na instituição, de modo que a redução total seria de 25%.

O cálculo leva em consideração o corte de bolsas em programas de mestrado e doutorado que possuem avaliação 3 e 4, conforme o anúncio. Na prática, a UEL passaria a conceder 695 bolsas ante as atuais 937. Seriam 242 a menos para mestrandos e doutorandos.

De acordo com dados apresentados nesta quinta, em fevereiro de 2019 a UEL contava com 504 bolsas de mestrado e 382 de doutorado da Capes. A projeção para este mês é que restarão 330 bolsas de cada modalidade.

Na reunião foram apresentadas as informações repassadas pelo presidente da Capes, João Luiz de Azevedo, na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados e que contou com representantes do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Como consequência imediata da concretização dos cortes, Alfieri afirma que haverá redução no número no vagas na pós-graduação. Atualmente, a UEL conta com 50 programas acadêmicos, sendo nove deles avaliados com as notas mais altas, entre 5 e 7. “Só que isso não significa que os programas 3 e 4 sejam programas ruins. Não é isso. É que os programas 6 e 7 são ultra-consolidados, com muito tempo de atuação e formação. Todos os programas iniciam com a nota 3, é a nota de entrada no sistema de pós-graduação e são avaliados a cada quatro anos. A próxima é no final de 2020. No meu entendimento é um critério arbitrário”, avaliou a diretora Silvia Meletti, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação.

Segundo Meletti, mesmo com o recuo do governo federal com relação ao número de bolsas cortadas em comparação com o anúncio anterior, o cenário ainda é considerado “terrível”, uma vez que não está descartado um corte linear das bolsas caso não haja ampliação orçamentária.

“Nós não estamos considerando aqui o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico), aí seriam 45 bolsas de mestrado, 26 de doutorado, 9 de pós-doutorado e 149 de pesquisadores”, explicou.

Só para se ter uma ideia, as bolsas de iniciação científica para graduandos são de R$ 400 por mês. Já para o mestrado o valor é R$ 1.500 mensais e de R$ 2.200 para o doutorado, totalizando cerca de R$ 27 milhões anuais.

Os cortes também poderão afetar as bolsas concedidas pela Fundação Araucária, cuja maioria é destinada à iniciação científica, mas também abrange mestrado e doutorado com recursos da Capes. “Já tínhamos implementado 21 bolsas e em julho nós deveríamos ter implementado outras 42 e elas foram recolhidas. Os estudantes já haviam recebido a aprovação e estavam contando. Uma família já havia se mudado para Londrina, as pessoas se organizam para isso”, lamentou.

A agência de fomento estadual também é afetada com os bloqueios de recursos federais na Capes e CNPQ. Luiz Márcio Spinosa, diretor de ciência, tecnologia e inovação da Fundação Araucária, comentou que a instituição tem parcerias com as principais agências. “Os cortes estão atingindo todas as fundações, inclusive a nossa. Estamos tentando nos adequar a esses cortes. No nosso caso específico, há mais facilidade de captar recursos em parcerias com empresas privadas, porque nossa fundação é pública de direito privado”, argumentou. "Nós estamos correndo para viabilizar bolsas em parceria com empresas e superar essa saída das agências de fomento federais”, argumentou. A Fundação Araucária tem parceria com Capes, CNPq e Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

O reitor da UEL, Sérgio de Carvalho, também participou da reunião e, diante de um auditório lotado no CCH (Centro de Letras e Ciências Humanas), considerou que a defesa da pesquisa acadêmica, bem como da manutenção das bolsas de pesquisa, representam o “combate à mediocridade”. “As universidades são as grandes produtoras de conhecimento que podem levar aos saltos tecnológicos, portanto ao crescimento econômico e a taxas de crescimento econômico de longo prazo. Só que isso tem um efeito no tempo. Você investe hoje pra colher em dali quatro, cinco anos. As decisões de corte hoje comprometem o futuro, a curto prazo não, mas com certeza você condena o País a ter um crescimento medíocre no longo prazo. Então é importante que a sociedade brasileira compreenda isso”, alertou.

De acordo com o relatório “Education at a Glance”, da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil tem 700 pesquisadores para cada 100 mil habitantes. Já os Estados Unidos possuem 4 mil e Israel tem 8 mil para o mesmo grupo.

Dentre os 35 países analisados, o Brasil ficou em 31º lugar no ranking de nações com a maior taxa de doutores entre 25 e 64 anos. O índice médio dos países que integram a OCDE foi 1,1% de doutores diante da população total, enquanto o do Brasil foi 0,2%.(Colaborou Laís Taine)

mockup