As inúmeras pesquisas desenvolvidas por professores e estudantes da UEL (Universidade Estadual de Londrina) vão muito além do campus. Mesmo diante das dificuldades financeiras e estruturais, a universidade resiste e mantém convênios com 126 instituições em 28 países. “A troca de experiências é fundamental para o aprimoramento das pesquisas”, ressalta a doutora em Engenharia de Alimentos e professora da UEL, Elisa Yoko Hirooka.

Ricardo Chicarelli
Os alunos Gervásio Saito e André Ribeiro e a professora Elisa Hirooka: internacionalização universitária
Ricardo Chicarelli Os alunos Gervásio Saito e André Ribeiro e a professora Elisa Hirooka: internacionalização universitária | Foto: Ricardo Chicarelli

Já no final da década de 1970, a então estudante vivenciou a primeira troca de experiências com um pesquisador do exterior. Visitas constantes de um professor da Universidade de Wisconsin (EUA) ao campus da UEL fizeram com que a então mestranda em Ciência de Alimentos aprendesse inglês às pressas.

A gente tinha que assistir as aulas em inglês. Eu não entendia nada. Era bem complicado. Tive ajuda e aprendi a escrever em inglês para responder as cartas do professor. Ele queria enviar reagentes para pesquisa”, explica. Segundo Hirooka, outros docentes estrangeiros também faziam parte do programa de pós-graduação na época.

A parceria ampliou o leque de possibilidades na carreira acadêmica. O currículo inclui diversas experiências no Japão e parcerias com pesquisadores ao redor do mundo. Com um olhar otimista em relação à pesquisa científica no Brasil, a docente aposta em novos pesquisadores como disseminadores do conhecimento.

Aprendi também a estimular os alunos. Acho muito importante essa experiência. Cada aluno que sai da universidade é muito precioso. Faço de tudo para ajudá-los a ir para fora. Espero que os alunos sejam capazes de ser bons profissionais, eticamente muito bem formados e que sejam capazes de ajudar os que estão vindo atrás. Se não tem dinheiro, pelo menos a gente dá esse estímulo e enriquece as pesquisas”, destaca.

O pesquisador Gervásio Hitoshi Saito participou de intercâmbio em 2013, no Japão, com o apoio da Assessoria de Relações Internacionais da UEL. A experiência era um dos objetivos do estudante desde o início da graduação em Farmácia. Foram três anos de preparação até o embarque para dez meses de intercâmbio.

Superou minhas expectativas. Fui preparado, mas tive várias surpresas por lá. Mesmo sendo descendente de japoneses, há muita diferença cultural. A interação com os outros intercambistas também foi muito interessante para conhecer as diferenças entre os países. Politicamente, economicamente e socialmente”, relata. Saito teve contato com acadêmicos da Indonésia, China, Tailândia, México e Estados Unidos.

A oportunidade abriu portas para a carreira acadêmica. Saito participou de uma nova experiência no Japão entre 2016 e 2017, durante o mestrado também realizado na UEL. Hoje o doutorando em Ciência de Alimentos, orientado pela professora Elisa Yoko Hirooka, busca adaptar o conhecimento técnico adquirido no exterior. Conforme o pesquisador, os conceitos estudados no Japão podem ser implantados nas pesquisas desenvolvidas na universidade, porém a falta de materiais de laboratório ou de reposição dos itens necessários compromete a agilidade dos trabalhos. Saito realiza pesquisas na área ambiental sobre a qualidade da água na produção de alimentos.

O também doutorando André Ribeiro embarca para o Japão em agosto. Ao todo, serão 47 dias no Oriente. Ele reforçou as aulas de inglês e se prepara para a troca de experiências. “Na graduação participei de um evento na Itália, mas como pesquisador será minha primeira viagem no exterior pela UEL. Vamos ter aulas de japonês lá, mas já vou chegar pedindo desculpas em japonês. Já aprendi”, conta descontraído. “Minha expectativa é alta até pela questão da cultura, do ensino e da relação dos pesquisadores com as indústrias. Quero observar como são a qualidade e o processamento de alimentos por lá”, explica. Ribeiro realiza pesquisas na área de produção de amendoim.

A Assessoria de Relações Internacionais da UEL foi criada no começo dos anos 2000. O assessor Fábio de Oliveira Pitta, responsável pelos trabalhos, conta que as atividades envolvem parcerias em projetos, convênios e acordos para envio e recepção de docentes e alunos de instituições de ensino. A assessoria abrange também dois núcleos preexistentes na universidade: o Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa e o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros. Já questões administrativas e documentais são realizadas com o apoio das pró-reitorias Prograd (Pró-reitoria de Graduação) e Proppg (Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação).

Conforme Pitta, entre os alunos e professores da UEL, os destinos mais procurados são universidades da Europa, dos Estados Unidos e da Austrália. “Países com convênios mais sólidos são França, Portugal, Estados Unidos, Reino Unido e Japão”, afirma. Estudantes da América Latina (sendo maioria da Colômbia, Chile e Argentina) e da África também procuram a UEL para viabilizar o intercâmbio. Entre graduação e pós-graduação há hoje, aproximadamente, cem alunos estrangeiros na instituição.

Na graduação, a maioria dos acordos não envolve bolsas de estudo, mas garante a isenção de taxas de matrícula e mensalidade, por exemplo. Na pós-graduação, a oferta de bolsas ocorre com recursos estaduais e federais.

Os rankings internacionais estão com importância crescente. A UEL se orgulha se estar posicionada em vários deles como uma das melhores do País. Boa parte da pontuação desses rankings vem do quesito de internacionalização da universidade”, destaca o assessor de relações internacionais.

Existe um sucateamento e uma escassez de recursos, uma redução progressiva nos últimos anos nos níveis federal e estadual. A gente entende o cenário de crise, mas acho que uma das grandes saídas para a crise é a educação. Vemos com ares de muita preocupação essa diminuição de recursos. Isso está refletindo diretamente na internacionalização. Esperamos que isso seja revertido em breve”, lamenta.

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